Cientistas lançam desafio à Fifa: salvar o tatu-bola da extinção

Cientistas lançam desafio à Fifa: salvar o tatu-bola da extinção

Herton Escobar

25 Abril 2014 | 09h07

Em artigo, pesquisadores sugerem que 1 mil hectares sejam declarados com área protegida na caatinga para cada gol marcado na Copa do Brasil.

FOTO: O tatu-bola, Tolypeutes tricinctus. Crédito: J.A. Siqueira

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Neste momento, em alguma fábrica da China, imagino que estão sendo (ou já foram) produzidos alguns milhões de bonecos do Fuleco, o simpático tatu-bola que foi escolhido como mascote da Copa do Mundo 2014 no Brasil. Infelizmente, o número de tatu-bolas de verdade que caminham hoje pelas florestas secas da caatinga brasileira é bem menor do que isso. A espécie, conhecida cientificamente como Tolypeutes tricinctus, está ameaçada de extinção (consta como “vulnerável” no Livro Vermelho do ICMBio), assim como o ambiente natural do qual ela depende para sobreviver.

Pensando nisso, um grupo de pesquisadores do Nordeste resolveu fazer um desafio à Fifa e ao governo brasileiro, bem mais modesto do que a construção de estádios e outras obras megalomaníacas desse tipo: destinar 1 mil hectares de caatinga como área protegida para cada gol que for marcado na Copa do Mundo no Brasil. Considerando que cerca de 150 gols são marcados em média por torneio, isso implicaria na criação de 1.500 km2 de áreas protegidas no bioma. E se você está achando muito, saiba que isso representaria míseros 0,002 % da área total de ocorrência da espécie, delimitada na figura abaixo (estimada em 732 mil km2).

Não é pedir demais, né? Pra quem está gastando (no caso do Brasil) ou ganhando (no caso da Fifa) bilhões de dólares com o futebol e a venda de souvenirs do Fuleco, não custa muito dar esse cachê para o coitado do tatu-bola.

A proposta dos pesquisadores está descrita em um artigo publicado na revista científica Biotropica. O autor principal é o biólogo Enrico Bernard, da Universidade Federal de Pernambuco, Laboratório de Ciência Aplicada à Conservação da Biodiversidade. Ao receber o artigo, fiz uma rápida entrevista com ele por email:

Qual é a mensagem principal do artigo?

A escolha do tatu como mascote da Copa do Brasil é uma oportunidade ímpar para que FIFA e governo brasileiro estabeleçam um novo padrão de legado ambiental para as Copas.

Você acha que a Fifa poderá dar ouvidos a ela?

Espero que sim, afinal a escolha de uma mascote simboliza um comprometimento de quem o escolheu com uma causa. Aos escolherem o tatu-bola e ao batizarem-no com um nome cuja origem deixa claro a fusão de futebol + ecologia, a FIFA sinalizou que pretendia abordar este tipo de questão nesta Copa.  

O tatu-bola foi uma boa escolha para mascote da Copa? Porquê? De que formas ele é representativo do Brasil e da biodiversidade brasileira?

Sob o ponto de vista de marketing a escolha do tatu foi apropriada: É um animal tipicamente brasileiro e que assume uma forma peculiar de bola, que obviamente remete ao futebol. Entretanto, o mal status de conservação da espécie e de seu habitat colocam tanto a FIFA quanto o governo brasileiro em uma situação delicada quanto à escolha. Eles precisarão agir efetivamente.

Também assinam o trabalho Felipe Melo (UFPE), José Siqueira (Universidade Federal do Vale do São Francisco), Braulio Santos (UFPB), Orione Álvares-da-Silva (ICMBio), e Gerardo Ceballos (Universidad Nacional Autonoma de México).

Segundo eles, apesar de toda a publicidade positiva gerada pela escolha do tatu-bola como mascote da Copa, a Fifa não fez absolutamente nada pela espécie até agora.

Compromissos. Proteger a caatinga seria o melhor meio de proteger o tatu-bola, já que a perda de habitat é uma das principais ameaças à sua sobrevivência. Segundo os dados apresentados no artigo, a caatinga brasileira já perdeu quase metade (47%) de sua cobertura vegetal original, que era de 845 mil km2 (11% do território nacional). Fora isso, o tatu é um constante alvo de caça das populações locais, como fonte alimentar de subsistência. A capacidade dele de se enrolar na forma de uma bola não ajuda muito nessas horas …

Além da criação de novas áreas protegidas, os pesquisadores cobram também do governo brasileiro a real implementação do projeto Parques da Copa, que em 2011 prometia investir US$ 275 milhões em 47 unidades de conservação (26 federais e 21 estaduais e municipais) que deveriam atrair visitantes durante a Copa. Dois anos depois, segundo os autores, o número de unidades supostamente beneficiadas foi reduzido para 16 e apenas 2% dos recursos prometidos foram de fato investidos até agora.

Por fim, resta perguntar: Quem tem mais chances de sair ganhando nessa Copa, a seleção brasileira ou o tatu-bola? Essa vocês respondem.

FOTO: Figura do trabalho publicado na revista Biotropica, mostrando a área de ocorrência da espécie. Crédito: Cortesia de Enrico Bernard/UFPE

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