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Cientistas se organizam para fazer análise independente do desastre de Mariana

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BARRAGENS

Cientistas se organizam para fazer análise independente do desastre de Mariana

Pesquisadores estão indo a campo por conta própria para coletar amostras, resgatar animais e analisar o verdadeiro impacto ambiental do tsunami de lama que varreu a bacia do Rio Doce

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Herton Escobar

15 Novembro 2015 | 12h09

samarco_grupo

Centenas de cientistas brasileiros estão se organizando, voluntariamente, para fazer uma avaliação independente do impacto ambiental causado pelo rompimento das barragens de Mariana. Muitos deles se deslocaram para os locais atingidos pelo desastre e estão coletando dados e amostras para análise, num esforço que lembra o de médicos voluntários ajudando vítimas de um terremoto (neste caso, um tsunami de lama). Um grupo foi criado no Facebook para organizar os esforços e uma iniciativa de crowdfunding foi lançada para financiar as análises e a elaboração do relatório: http://goo.gl/1xEPnj

“Considerando que este é um dos maiores desastres ambientais sofrido pelo Brasil, envolvendo rios e as populações a sua volta, abrangendo vários municípios, que as posturas das instituições públicas são vagas e o poder econômico dos envolvidos, é de extrema importância que exista um relatório independente e isento, que possa ser utilizado nas ações decorrentes relacionadas aos efeitos do rompimento das barragens”, diz a proposta de crowdfunding na internet, que visa a arrecadar R$ 50 mil. “O relatório final será de domínio público, constituindo-se em ferramenta para que este desastre não fique impune.”

A iniciativa partiu do biólogo Dante Pavan, especialista em répteis e anfíbios formado pelo Instituto de Biociências da USP, e está sendo coordenada por Viviane Schuch, microbióloga e pesquisadora da Unifesp.

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Um grupo criado no Facebook para compartilhar informações e notícias sobre o desastre tinha mais de 3 mil membros na segunda-feira (16) de manhã: https://m.facebook.com/giaia2015. (OBS: Nem todos são pesquisadores. Com a divulgação da notícia, muita gente interessada no assunto se inscreveu no grupo.)*

“Muitos profissionais estão neste momento em campo com recursos próprios. Através do Facebook, houve a organização das equipes, de forma a se otimizar as coletas de amostras de água e sedimentos. Algumas coletas foram realizadas antes da chegada da lama, e outras estão sendo feitas agora, após a chegada. Nosso objetivo é conseguir parcerias com laboratórios para que sejam feitas análises de metais pesados, poluentes e de metagenômica. Muitos laboratórios de dentro e de fora do Brasil já demonstraram interesse, até porque existe um claro apelo científico”, disse ao Estado o biólogo Alexandre Martensen, que não foi ao local do desastre mas participa da iniciativa online, na Universidade de Toronto, onde está fazendo seu doutorado.

“Contrastando com a relativa inércia das empresas envolvidas e também das diferentes instâncias de governo, este grupo independente rapidamente se mobilizou via rede social e começou uma impressionante ação, que pode ter um papel fundamental para que saibamos algum dia os reais impactos deste acidente, bem como possamos recuperar esta bacia”, completou Martensen, que tem experiência na realização de estudos de impacto ambiental.

Os relatos daqueles que estão no campo são de um cenário de destruição generalizada, que deixará impactos de longo prazo por toda a bacia do Rio Doce. Muitos rios por onde a onda de lama passou foram totalmente soterrados ou severamente assoreados, comprometendo a vida de todo o ecossistema, e os impactos deverão chegar ao ambiente marinho. Os pesquisadores foram rápidos e conseguiram chegar à foz do Rio Doce antes da lama, a tempo de coletar amostras de água, areia e outros sedimentos no seu “estado natural”, que depois servirão de base comparativa para avaliar os estragos e a contaminação gerados pelo desastre.

Leia reportagem especial no Estadão: Enxurrada de lama tira vida dos ecossistemas

*Post atualizado às 14h do dia 16.

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