CLONAR OU NÃO CLONAR, EIS A QUESTÃO

CLONAR OU NÃO CLONAR, EIS A QUESTÃO

Herton Escobar

11 Janeiro 2010 | 16h07


FOTO: Ian Wilmut, o homem que clonou a Dolly. (Jeff Mitchell/Reuters)

Imagine só ….
Qual seria o tamanho necessário da amostra para fazer um clone seu?
Em outras palavras, quanto de você eu precisaria ver ou conhecer para ser capaz de produzir uma outra pessoa idêntica a você? Uma cabeça, um cérebro, um coração? Talvez um braço ou uma amostra de cabelo?

Nada disso. Todas as instruções necessárias para construir uma pessoa igual a você cabem dentro de uma única célula. Ou melhor, dentro de um único núcleo de célula. É o seu genoma. Três bilhões de letrinhas genéticas empacotadas em 23 pares de cromossomos, num espaço tão pequeno que você precisaria de um belo de um microscópio para enxergá-los.
Essa é a base da clonagem.

Você pega o núcleo de uma célula, coloca dentro de um óvulo anucleado (cujo núcleo foi previamente removido), estimula esse óvulo a se dividir para formar um embrião, coloca esse embrião dentro de uma barriga de aluguel e pimba!, nasce um clone.

Acredite se quiser, mas dentro de cada uma das trilhões e trilhões de células que compõem o seu corpo existe uma cópia completa do seu genoma dentro delas (com exceção das células reprodutoras — espermatozoides e óvulos — que tem só uma cópia de cada cromossomo). E com qualquer uma delas, em tese, é possível produzir uma outra pessoa idêntica a você. Imagine só!

Na prática, os cientistas precisam de milhares de células em cultura para fazer um clone. Isso porque a eficiência da técnica é muito baixa, e é preciso produzir às vezes centenas de embriões in vitro para conseguir que pelo menos um deles vingue dentro do útero. Mas isso é um problema tecnológico. O clone que acaba nascendo é produto de um único núcleo de uma única célula.

O fato que um organismo inteiro, super complexo, pode surgir da simples união de um óvulo com um espermatozoide já é quase inacreditável. Pensar que o mesmo processo pode ser feito com base em um único núcleo de célula da pele então … Se já não houvesse tantos clones por aí eu diria que é, de fato, impossível. Mas não é.

O primeiro clone de um mamífero foi a famosa ovelha Dolly, nascida em 1996 na Escócia. Depois dela já foram produzidos vários clones de várias espécies, com vacas, porcos, cabras, ratos e camundongos (para fins de pesquisa), cachorros, gatos, cavalos e outros que não me lembro agora.

Ninguém até agora conseguiu clonar um ser humano nem outros primatas, provavelmente porque clonar humanos é proibido em praticamente todos os países que fazem ciência séria, incluindo o Brasil. Mas não haveria, em tese, nenhum empecilho biológico à clonagem de seres humanos. Se houvesse realmente um esforço científico internacional para clonar pessoas, alguém eventualmente chegaria lá.

Mas será que valeria a pena? Qual seria o propósito de clonar uma pessoa? Talvez produzir uma cópia de algum ente querido? De alguma criança que morreu, vítima de doença ou acidente? Ou então como uma última alternativa para casais inférteis, que não conseguem ter um filho próprio de maneira alguma?

Em primeiro lugar, há um impedimento técnico. Muitos clones morrem durante a gestação ou logo após o parto, vítimas de má-formações. Esse tipo de perda pode ser aceitável eticamente para vacas ou porcos, mas não para bebês humanos. Em segundo lugar, mesmo que a técnica fosse perfeita, acho que todos esses exemplos acima acabariam em desastre emocional.

O clone seria uma cópia genética da pessoa original, mas não seria a mesma pessoa. O clone seria o equivalente a um gêmeo idêntico da pessoa, mas quem conhece gêmeos idênticos sabe o quanto eles podem ser diferentes (tanto em aparência quanto em comportamento), mesmo morando na mesma casa, frequentado a mesma escola, etc. Então, o clone seria uma pessoa quase idêntica fisicamente à pessoa original, e certamente teria um comportamento parecido em muitos aspectos, mas ao mesmo tempo seria uma outra pessoa completamente diferente.

Há vários mecanismos genéticos, não genéticos e evolutivos interessantíssimos que explicam isso, mas não tenho espaço para entrar nos detalhes aqui. O fato é que os clones são a prova máxima de que quase tudo em nós pode ser explicado pela genética…. mas só QUASE tudo. Não TUDO. Cada pessoa é um indivíduo único, irreplicável, moldado ao longo do tempo por uma série de interações entre seu genoma e o ambiente em que vive, desde o útero até a morte. Imagine só!

Abraços a todos.