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COMIDA ARTIFICIAL

Herton Escobar

05 Maio 2010 | 11h10

Science/AAAS

Você sabia que a maioria das coisas que a gente come não existe na natureza?

Não que elas não sejam naturais (tirando chicletes, balas e coisas do tipo que, na verdade, nem contam como “comida”…. estou falando mesmo é do arroz e feijão, do milho, da alface, do tomate, do frango, do boi…).

Claro que são “naturais”, no sentido de que são organismos biológicos, animais ou vegetais, feitos de células como todos os seres vivos.

Mas também são “artificiais” num sentido figurado, de que são organismos construídos/moldados pela tecnologia humana, profundamente diferentes (inclusive geneticamente) das suas versões originais “selvagens”, pré-domesticação.

O milho é um exemplo clássico disso. Se você olhar para uma espiga de milho “moderna” e um pé de milho selvagem, é quase inacreditável que uma coisa tenha vindo da outra. (meu primeiro instinto foi escrever “é quase inacreditável que sejam a mesma planta”…. mas o incrível é justamente isso: o milho que comemos hoje foi tão modificado de sua versão original que virou praticamente uma outra planta)

O milho, acredite se quiser, é uma gramínea. Se você olhar para o milho “original” do México, chamado teosinte, parece um capim qualquer. Não tem nada nem parecido com uma espiga amarela. Dez mil anos de domesticação, porém, alteraram a planta significativamente. Os primeiros agricultores do milho foram selecionando as plantas que tinham sementes maiores, e maiores, e maiores, e maiores, e maiores….. até que, dez mil anos depois, você para na frente de um carrinho com água fervente na beira da praia e compra uma bela espiga de milho, cheia de sementes amarelas, grandes e suculentas.

Hoje existem centenas de variedades de milho, adaptadas a diferentes condições de clima, solo e cultivo. E quase todo o milho plantado no mundo hoje é híbrido – ou seja, resulta do cruzamento de duas variedades diferentes. Por razões que a ciência ainda não compreende muito bem, o milho híbrido produz mais do que qualquer um de seus “pais” conseguiria produzir por conta própria, sem cruzamento. A desvantagem é que a semente híbrida perde “força” após um ou dois plantios. Por isso é preciso comprar novas sementes quase todos os anos.

Mas o fato essencial aqui é o seguinte: Se você tivesse uma máquina do tempo e voltasse para qualquer data anterior a 10 mil anos atrás, o milho de espigas amarelas que você conhece não existiria. Ele é uma invenção humana! É uma tecnologia, desenvolvida ao longo de milhares de anos de seleção e melhoramento genético.

Se você soltar um milho moderno na natureza, ele não sobreviverá por muito tempo. Sem o homem para cuidar dele, plantar as sementes na hora certa, dar fertilizante, água e protegê-lo de ervas daninhas e insetos, não teria a menor chance. Seria como soltar um poodle numa floresta e esperar que ele sobreviva como um lobo!

O mesmo vale para o tomate, o morango, a alface, o arroz, a uva, a maça….. Praticamente tudo que você compra no supermercado hoje são versões totalmente alteradas de plantas selvagens que foram domesticadas, alteradas e adaptadas aos caprichos do ser humano. Os animais idem: porco, galinha, vaca…. todos muitos diferentes de suas versões selvagens.

Uma espiga de milho ou um grão de arroz são tecnologias tão modernas e tão fantásticas quanto uma televisão ou um telefone celular. Imagine só!

Abraços a todos.

Maize-teosinte

FOTOS: No alto do post, um exemplo de variedades de milho, cuja cor varia de acordo com a quantidade de carotenóides presente na semente. (crédito SCIENCE/AAAS)

Acima, com o fundo vermelho, uma comparação entre uma “espiga” de teosinte (esq.), uma espiga de milho moderno (dir.) e um híbrido produzido pelo cruzamento entre as duas plantas, no meio (apenas para fins científicos…. os híbrido comerciais usados na agricultura são cruzamentos de variedades modernas de milho). Crédito: JOHN DOEBLEY

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