Comunidade científica diz o que pensa sobre a crise da água em São Paulo: “muita discussão e pouca ação”

Comunidade científica diz o que pensa sobre a crise da água em São Paulo: “muita discussão e pouca ação”

Academia Brasileira de Ciências alerta para a gravidade da situação e recomenda uma reconstrução imediata dos sistemas de gestão pública dos recursos hídricos no Sudeste, para evitar que a crise atual se perpetue pelas próximas décadas. Para 2015, única solução é reduzir drasticamente o consumo de água na Região Metropolitana de São Paulo. Ainda assim, situação tende a piorar.

Herton Escobar

16 Dezembro 2014 | 19h30

O baixo nível do Sistema Cantareira pode ser percebido na Represa Atibainha, localizada em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo. Foto: Clayton de Souza/Estadão

Caminho para solucionar a crise passa por redução do consumo e melhor gestão dos recursos disponíveis. Na Represa Atibainha, as marcas da estiagem podem ser vistas nos pilares de uma ponte, em Nazaré Paulista. Foto: Clayton de Souza/Estadão

A falta de chuvas fez emergir muitas coisas do leito cada vez mais seco dos reservatórios de água do Sudeste. Entre elas, as carcaças de carros roubados, sofás velhos e um sistema de gestão de recursos hídricos antiquado, politizado, ineficiente e incapaz de responder com segurança aos desafios de abastecimento impostos pelas mudanças climáticas e pelo crescimento populacional, principalmente na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), onde a poluição dos rios e das represas gera uma abundância da água imprópria para consumo e nociva à saúde da população.

É o que diz a Academia Brasileira de Ciências (ABC) na chamada

Documento

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Temos um sistema fragmentado, em que muito se discute sobre “quem manda” e pouco se decide sobre o que fazer

A carta começa falando sobre as mudanças climáticas — que ameaçam tornar eventos de seca como este cada vez mais frequentes —, mas não se trata de um estudo científico, nem de botar a culpa (apenas) no clima. O documento é extremamente direto, objetivo e contundente ao avaliar a gravidade da situação e o que precisa ser feito pelo poder público para garantir o abastecimento hídrico da região, não só para 2015 (o que vai ser dificílimo) como nas próximas décadas.

A recomendação número 1 dos pesquisadores é: Revisar e atualizar imediatamente o sistema de governança dos recursos hídricos.

Diz o documento:

Temos um sistema fragmentado, em que muito se discute sobre “quem manda” no uso dos recursos hídricos e pouco se decide sobre o que fazer, muito menos sobre quem tem a responsabilidade de realizar o que quer que tenha sido decidido. O resultado é muita discussão e pouca ação. Quando todos são responsáveis, ninguém é responsável.

Para enfrentar o principal problema, que é o abastecimento público, é absolutamente necessário e imprescindível modernizar e dinamizar os sistemas de gestão, evoluindo para o que tem sido denominado mais modernamente de governança da água para designar o conjunto de ações e níveis capaz de lidar com toda a complexidade e especificidades que requer o controle, proteção e uso sustentável dos recursos hídricos.

As alterações devem ser implantadas de forma a promover mudança da gestão setorial, de resposta e em nível local, para uma gestão preditiva, integrada e em nível de ecossistema (bacia hidrográfica), levando em conta os processos ecológicos, econômicos e sociais.

Ok, isso pode melhorar as coisas a longo prazo, do ponto de vista sistêmico. Mas o que fazer agora, na prática, com o nível dos reservatórios já batendo no lodo, para não ficarmos sem água em 2015?

Infelizmente, o documento é metódico e não oferece soluções mágicas. A dura realidade do momento é a seguinte: São Paulo não tem de onde tirar mais água no curto prazo, e não há outra coisa a fazer a não ser reduzir drasticamente o consumo em 2015, para tirar o máximo proveito de cada gota que nos resta e seguir caminhando no deserto, torcendo para aparecer algum oásis no meio do caminho. Pense no volume morto do Cantareira como uma última garrafa d’água coletiva, da qual todos os paulistanos vão precisar beber até 2016 (e talvez mais) para não morrer de sede. Se acabar, acabou.

O que resta de água nessa garrafa é tão pouco que, mesmo que São Pedro abra a torneira e chova muito nesse verão, a situação continuará crítica ainda por um bom tempo.

volume_aguas_16dez

Diz o documento:

Dada a magnitude da atual crise hídrica e as graves consequências em todas as áreas e atividades da sociedade é urgente a imediata estruturação e implementação de plano de contingência e emergência, contemplando medidas e ações emergenciais equitativas, isto é, que atinjam todos os usuários da maneira mais uniforme possível. Deve ser assegurado ao público o direito de livre acesso à informação veraz, integral e atualizada.

O controle do uso de água e incentivos ampliados para redução da demanda, com acréscimos tarifários em casos de aumento de consumo, são fundamentais. Não basta premiar quem reduz o consumo. É preciso também punir quem aumenta o consumo, como foi feito no racionamento de energia de 2001, ou mesmo impor quotas, como foi feito em Barcelona.

Também devem ser incentivados, desenvolvidos e adotados tecnologias e equipamentos que propiciem o uso racional da água na indústria, na agricultura (processos menos dependentes de água, reutilização, reuso) e nos serviços de saneamento (controle de perdas, poupadores domésticos e não domésticos, reuso).

Fazer rodízio não é uma opção, segundo a engenheira Monica Porto, professora titular da USP, que é uma das autoras do documento. “São Paulo tem áreas com tubulação mais antiga e pode ocorrer infiltração na rede, permitindo a entrada de água suja e gerando danos à saúde pública. O número de manobras para fechar e abrir os trechos da rede diariamente é enorme e a possibilidade de erros é muito grande. Então vale mais a pena investir nas multas e incentivos”, diz ela, em um texto divulgado pela ABC junto com a carta.

Não basta premiar quem reduz o consumo. É preciso também punir quem aumenta o consumo

Além disso, há o problema de o rodízio ser socialmente injusto. “Num rodízio, interrompe-se a distribuição de água, a rede se esvazia e, quando começa a encher de novo, quem está mais próximo dos reservatórios de distribuição é atendido primeiro. Como a caixa d’água está vazia, a água disponível pode acabar nem chegando para quem está lá na ponta”, explica Monica. E pouco educativo: ”Ninguém aprende a economizar água com rodízio, pois as pessoas acumulam no tanque, na caixa d’água, e no dia que a água volta, o consumo é o mesmo”, completa ela.

Por fim, é importante que os paulistanos não se deixem enganar pelos temporais que costumam despencar sobre São Paulo e alagar as ruas da cidade de tempos em tempos durante o verão, criando uma falsa sensação de que o problema da seca terminou.

Diz o documento:

É preciso evitar, ainda, que os previsíveis temporais de verão desmobilizem a sociedade para a necessidade de economizar água, pelo menos enquanto o volume afluente não tiver magnitude suficiente para recuperar os reservatórios.

Em outras palavras: Água que escorre pelo ralo não enche garrafa.

Leia também no blog: A seca do Cantareira é só o começo

Tempestades alagam ruas de São Paulo, mas não resolvem o problema da seca nos reservatórios. Água da chuva escorre para a rede de esgotos e vai embora sem ser aproveitada. Foto: Sergio Neves/Estadão

Tempestades alagam ruas de São Paulo, mas não resolvem o problema da seca nos reservatórios. Água da chuva escorre para a rede de esgotos e vai embora sem ser aproveitada. Foto: Sergio Neves/Estadão