CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ

Herton Escobar

30 Setembro 2011 | 02h27

Desenvolver uma cura contra o vírus da aids, o HIV, tem sido um dos maiores desafios da biomedicina há vários anos por vários motivos. O mais fundamental deles tem a ver com a natureza do vírus, que tem uma taxa de mutação enorme e, portanto, muda de “identidade” a todo momento. É como se a medicina fosse um policial e o vírus, um bandido, cujo retrato-falado é uma descrição química da capa de proteínas que reveste seu corpo. Você começa a busca com uma descrição, mas logo logo o bandido sofre uma mutação, muda de aparência, e a polícia não o reconhece mais (lembrando que a qualquer momento há milhões e milhões de bandidos circulando pelo seu organismo, e cada um deles sujeito a mutações individuais).

O grande desafio, portanto, é descobrir alguma feição na capa de proteína do vírus que seja permanente, não mude nunca, e usar essa característica para rastreá-lo, identificá-lo e destruí-lo (ou pelo menos impedi-lo de invadir suas células e cometer seus crimes lá dentro).

Muito melhor do que tentar prender o bandido, porém, seria impedir sua entrada no organismo para começo de conversa. Ou seja: prevenção! Algo que pode ser feito com uma camisinha e um pouco de responsabilidade. Mas enfim … todos sabemos que os seres humanos não são perfeitos. Então, vamos lá atrás de uma vacina, pra todo mundo poder ir pra cama tranquilo (e salvar milhões de vidas, principalmente na África, onde a aids é um problema seríssimo, e implementar uma cultura de prevenção é extremamente difícil, por uma série de motivos).

Vários projetos de pesquisa estão em andamento para tentar desenvolver uma vacina preventiva e/ou terapêutica contra a aids. Cientistas sabem o suficiente sobre o HIV para ir atrás dele, mas os desafios nesse caso também são enormes. Uma coisa: A partir do momento que você acha que tem uma vacina, como é que você testa a sua eficácia? A única maneira definitiva de saber se uma vacina funciona é aplicando-a em alguém e expondo esse alguém ao vírus.

Isso é fácil de ser testado em animais. Mas como fazê-lo em seres humanos? Algum voluntário a ser infectado com o HIV em nome da ciência? Fiquei me perguntando isso depois de ler essa matéria no site do Estadão: Desenvolvido protótipo de vacina contra aids com eficácia de 95%

A matéria não explica muito bem, mas fui atrás da informação e entendi: a eficácia é medida pela produção de anticorpos no organismo contra o HIV. A vacina é um vírus atenuado, inofensivo, chamado MVA-B, dentro do qual foram colocados 4 genes do HIV, que são característicos do vírus da aids, mas não são suficientes para causar a doença. A ideia é ensinar as células de defesa do organismo a identificar o HIV quando o HIV de verdade aparecer pela frente. É como se eles botassem uma máscara com uma foto do HIV no rosto de um bandido inofensivo e o soltassem dentro da corrente sanguínea, só para treinar os policiais.

Os resultados dessa pesquisa espanhola ainda não foram publicados em revistas científicas (apenas divulgados pela imprensa), então fico um pouco receoso de aplaudir. Mas tomara que dê certo. Já passou da hora de a ciência derrotar esse vírus!

Abraços a todos.