Crise da ciência chega aos ribeirinhos da Amazônia

Crise da ciência chega aos ribeirinhos da Amazônia

Instituto Mamirauá, que desenvolve pesquisas e presta suporte técnico a comunidades ribeirinhas, está fechando bases e demitindo funcionários por falta de recursos

Herton Escobar

13 Novembro 2015 | 14h38

Apoio ao manejo sustentável do pirarucu é uma das marcas do instituto. Foto: IDSM/Divulgação

Apoio ao manejo sustentável do pirarucu é uma das marcas do instituto. Foto: IDSM/Divulgação

Até comunidades ribeirinhas do interior da Amazônia estão sentindo os efeitos da crise financeira que atinge a ciência brasileira neste ano. O Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, com sede em Tefé (AM), desativou metade de suas bases de campo e demitiu dezenas de funcionários (incluindo pesquisadores) por falta de recursos. A instituição previa receber R$ 21 milhões em 2015, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mas até agora recebeu apenas R$ 12 milhões — o que não cobre nem a sua folha salarial, segundo o diretor Helder Queiroz.

“Fizemos todo o nosso planejamento do ano com base nesses R$ 21 milhões”, afirma Queiroz. “Isso está gerando uma crise muito grande. Estamos começando a perder recursos humanos que foram construídos ao longo de muitos anos e com muito esforço”, completa ele, chamando atenção para a dificuldade de se atrair mão de obra qualificada para trabalhar em regiões remotas da Amazônia. “Estou vendo essa equipe se desfazer.”

Cerca de 70 pessoas já foram dispensadas este ano, segundo Queiroz, “desde zelador até pesquisadores de alto nível”. O custo da folha salarial do instituto, segundo ele, é de R$ 14,5 milhões, para 212 funcionários.

O Instituto Mamirauá existe desde 2001, desenvolvendo projetos e prestando assistência técnica a comunidades ribeirinhas da Amazônia. O foco é na exploração sustentável de recursos naturais da floresta, como peixes e madeiras. Seu projeto mais famoso é o do pirarucu, espécie símbolo da instituição.

O instituto é uma Organização Social (OS) associada ao MCTI, que funciona com base em contratos de gestão firmados com o ministério. R$ 21 milhões foi o valor de contrato aprovado na Lei Orçamentária Anual de 2015, mas esse montante foi sendo contingenciado no decorrer do ano. Mamirauá “encontra-se a um passo do colapso”, diz o pesquisador Avílio Franco, presidente do conselho de administração do instituto, em uma carta enviada ao ministério no final de outubro (

Documento

).

Compromisso

Procurada pela reportagem, a secretária-executiva do MCTI, Emília Curi, se mostrou surpresa com o relato da instituição. “De todas as nossas organizações sociais, Mamirauá foi a que mais recebeu recursos (R$ 12 milhões)”, disse. Ela destacou que o orçamento da União foi aprovado com atraso neste ano, e por isso só começou a ser executado entre junho e julho; mas garantiu que o valor total do contrato será repassado ao instituto. “Estamos executando o orçamento conforme o previsto”, disse. “Até dezembro eles vão receber mais recursos.”