Crise global da biodiversidade: Não tão crítica assim? (2)

Herton Escobar

25 Janeiro 2013 | 11h24

Artigo de análise escrito para o jornal O Estado de S. Paulo pelo cientista brasileiro Carlos Joly, sobre o artigo publicado na revista Science pelos autores Mark Costello, Robert May e Nigel Stork (“Can we name Earth’s species before they go extinct? — Science, 25/01/2013)

CARLOS JOLY

Botânico da Unicamp e coordenador do Programa Biota-Fapesp

“Os desafios colocados pelos autores do artigo na Science estão dentro dos objetivos do Programa Biota-Fapesp, desde a sua criação em 1999. Entre eles, incentivar e financiar a capacitação de taxonomistas, treinados para utilizar, se necessário, técnicas modernas de biologia molecular na caracterização de espécies. Os treze anos de esforço do Biota resultaram em um aumento significativo do número de taxonomistas, bem como do conhecimento sobre a biodiversidade do Estado de São Paulo. Mas ainda não conseguimos produzir dados confiáveis sobre nossas taxas de extinção de espécies.

O Brasil ocupa o topo do ranking dos países megadiversos, usando os dados conservadores dos autores, temos algo entre 900.000 +/- 540.000 espécies (considerando que o Brasil abriga 18% da biodiversidade do planeta), das quais apenas cerca de 300.000 são conhecidas e descritas. Apesar do Biota ter sido utilizado para criação de programas similares em outros Estados, como Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, e para criação do Programa Nacional lançado pelo CNPq no final de 2009, o Brasil ainda tem um gigantesco déficit de taxonomistas. Além de formar, capacitar e fixar taxonomistas é preciso investir significativamente na infraestrutura de nossas coleções biológicas, tanto em termos de novos prédios e instalações como em termos de pessoal técnico especializado.

Para fazer frente aos compromissos que o Brasil assumiu ao se filiar ao Global Biodiversity Information Facility (GBIF), no ano passado, é imprescindível que o Protax (programa do CNPq e Capes para formação de taxonomistas a nível de mestrado, doutorado e pós-doutorado) seja fortemente revigorado, e que venha acompanhado, por exemplo, de um Programa de Infraestrutura para Coleções Biológicas a ser coordenado e implementado pela Finep, sempre com o apoio das Fundações de Amparo à Pesquisa Estaduais.”

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Alguns comentários enviados ao Estado via email pelo pesquisador Mark Costello, da Universiade de Auckland, que é o autor principal do artigo na Science, respondendo a algumas das críticas levantadas por pesquisadores brasileiros (na versão original, em inglês):

Sobre a possibilidade de um taxonomista descrever cem novas espécies por ano:

“I think it is possible. My PhD supervisor wrote a monograph with dozens of new amphipod species and several new genera he collected in Fiji within a few months. He could draw a species in a day. It may be easier or harder depending on what other work is required. I picked one hundred as a round number to indicate maximum productivity in the context of how much work was involved. Also, this figure was put in the context of somebody working through existing species collections and describing species therein.”

Sobre a opinião de que o artigo está “fora da realidade” de países tropicais, megadiversos e em desenvolvimento, como o Brasil:

“We do not address variation in what may be called ‘hurdles’ to do taxonomy between countries. It is not necessarily a high-tech science (been going for 250 years) so I do not think these would be any greater than for other sciences, perhaps even less. And I think all countries are benefiting from the online IT revolution, even if some have better access than others. That is why we mention the need for these things in our table – some will be needed more in some countries than others.

Brazil is actually a leader in some respects – CRIA developed some of the state-of-the-art online databases and software tools to ‘clean’ (identify errors) biodiversity databases, and I understand that there has been a growth in the number of taxonomists in Brazil in recent decades.”

Sobre a inclusão ou exclusão da biodiversidade críptica nos cálculos e previsões do artigo:

“Cryptic species have been covered in some recent papers cited (e.g. Appeltans et al. current Biology, 2012). They are unlikely to make a significant impact on overall biodiversity but will within some groups of species. Most species discriminated by molecular means can also be distinguished by morphological (e.g. crustaceans, fish). Some papers postulate that because they split a species based on molecular methods into several species that this means the same will happen for all other species; but this is not a reasonable extrapolation.”