DE ONDE VÊM AS BOAS IDEIAS?

Herton Escobar

16 Março 2011 | 11h21

Alguns dias atrás deparei-me com este vídeo do YouTube, que não é novo, mas que uma amiga minha por acaso postou no Facebook e que eu, também por acaso, vi, cliquei e me dei ao trabalho de assistir. Estava distraído, em dívida com o blog, recuperando-me do carnaval, procurando por algo interessante sobre o qual escrever e, de repente, pronto … apareceu!

Como diz a última frase do vídeo, “O acaso favorece a mente conectada”.

Esse caminho aleatório e despropositado que me trouxe até aqui tem tudo a ver com o conteúdo do vídeo, de autoria do escritor científico Steven Johnson. De onde vem as boas ideias? … Uma pergunta universal que, no meu caso, poderia ser escrita também como “De onde vem as boas reportagens?” Ou as boas histórias?


Elas podem vir de qualquer lugar. Inclusive, muitas vezes, de onde você menos espera. Com certeza elas não aparecem “do nada”, como uma lâmpada que se acende repentinamente sobre a cabeça de alguém (o chamado “momento eureka!”). As ideias tem um tempo de maturação … e assim como uma semente precisa de água e nutrientes para dar à luz uma planta, uma grande ideia precisa ser alimentada com informações e outras ideias menores para se desenvolver e crescer. Caso contrário, pode até ter grande potencial, mas permanecer para sempre debaixo da terra, enterrada no seu cérebro. Será para sempre uma semente, nunca uma árvore.

Um dos exemplos usados pelo autor no vídeo é o de Charles Darwin (o velhinho de olhos arregalados sentado na banheira, olhando para a tartaruga). Darwin levou 20 anos para publicar sua teoria sobre a origem das espécies. E provavelmente teria levado mais tempo ainda, se não fosse por uma carta que recebera de um colega naturalista, Alfred Russel Wallace, que na época estudava a biodiversidade das ilhas do sudeste asiático. Na carta, Wallace apresentava uma teoria sobre a origem das espécies, e pedia a opinião de Darwin sobre ela. Mal sabia ele que Darwin já havia chegado exatamente à mesma teoria muitos anos antes, e só não a havia publicado antes porque sabia do impacto que ela teria (tanto do ponto de vista científico quanto religioso) na sociedade, e por isso queria pesquisá-la à exaustão antes de levá-la a público.

Lembro-me bem de quando estudei a história da teoria evolutiva com a professora Janet Browne, em Harvard, e uma das coisas que ela enfatizava muito no curso era que Darwin nunca teve um “momento eureka”. Vários outros cientistas/naturalistas já haviam postulado sobre a origem das espécies antes dele, e Darwin se aproveitou das ideias de todos eles (no bom sentido) para consolidar sua teoria. Ele também lia muito, observava muito, estudava muito e se correspondia frequentemente com outros pesquisadores. Fez aquela viagem crucial com o capitão Fitzroy, à bordo do H.M.S. Beagle, que o levou ao interior de florestas e ao cume de montanhas de diferentes ilhas e continentes ao redor do mundo. Combinou geologia e paleontologia com biologia, e chegou a uma conclusão sobre como as espécies surgem e evoluem ao longo do tempo, por meio de um processo de seleção natural. Se tivesse ficado fechado em seu escritório, tentando tirar uma resposta “do nada”, da própria cabeça, certamente nunca teríamos ouvido falar de Charles Darwin.

As grandes ideias quase sempre tem uma grande história por trás delas. E suas raízes se estendem para muito além do cérebro de seu autor principal.

É por isso que um bom cientista não pode olhar apenas para sua própria bancada. Nem pode focar demais naquilo que está estudando. Muitas vezes, a peça que falta para montar um quebra-cabeça da biologia pode vir da geologia – como foi no caso de Darwin – ou da física ou da química, ou de qualquer outra disciplina. Aliás … uma das peças cruciais para Darwin na formulação de sua teoria biológica veio da cabeça de um economista, Thomas Malthus, no livro Ensaio sobre o Princípio das Populações, em que ele examina como a pobreza, a fome e outros fatores socioeconômicos controlam o crescimento populacional de uma sociedade.

É exatamente por isso que, para ser um bom escritor, é preciso ler muito. Não só sobre aquilo que se está escrevendo, mas sobre tudo. De todos os estilos, todos os assuntos. De histórias em quadrinhos a literatura. Da física à psicologia. Da comédia ao drama.

É por isso também que um bom jornalista precisa ler muito, estudar muito e ter muitas fontes. É por isso que “lugar de repórter é na rua”, como gostam de dizer os editores … porque as coisas não acontecem dentro da redação, elas acontecem “na rua”, no mundo real. Essa “rua”, para quem escreve sobre ciência, são os laboratórios e as universidades. Essa “rua”, para quem cobre meio ambiente, são as florestas, as montanhas e os oceanos. Não há mudança climática nem espécies em extinção dentro de uma sala fechada com ar condicionado.

É por isso que eu estou escrevendo esse post de uma ilha no Caribe, e não da minha mesa na redação do jornal O Estado de S. Paulo (temporariamente). Ninguém tem uma grande ideia sentado com a bunda no sofá o dia inteiro. Ir à rua favorece o acaso. Ficar fechado na redação, não.

Claro que hoje, com a internet, tudo fica mais fácil. Tirando o telefone, eu estou tão conectado aqui, numa pequena ilha do Caribe, quanto estava em São Paulo, em meio àquele mar de torres e antenas. Posso ler o jornal todos os dias, em formato digital, acompanhar as revistas científicas, falar com as pessoas por email, Skype, MSN, Twitter, Facebook, e por aí vai … É tanta coisa que fica até difícil acompanhar tudo e responder tudo. Muitas vezes preciso me controlar para não passar todo o meu “tempo livre” na frente do computador. Mas não deixo de favorecer o acaso. Dando uma olhadinha aqui e outra ali, sempre aparece alguma informação interessante, alguma ideia nova .. como foi o caso com este vídeo que minha amiga colocou no Facebook e me motivou a escrever este post.

Então, concordo com o autor quando ele diz que a conectividade é um motor essencial da inovação, tanto tecnológica quanto intelectual. Só não acho que os meios digitais poderão (ou deverão) um dia substituir por completo o valor do contato humano … nunca! O Google Earth é fantástico, mas a “rua” de verdade, que inspira as pessoas criativas e onde as coisas acontecem, ainda é e sempre será assim, de verdade. É por isso que fazer uma entrevista em pessoa é sempre melhor que uma entrevista por telefone ou email … sempre! Darwin nunca teria desenvolvido sua teoria da evolução assistindo a um vídeo da viagem do Beagle pelo YouTube, ou acompanhando os posts de Fitzroy no Facebook. Se você quer saber como a natureza funciona, tem de ir para dentro dela. Sentir seu cheiro, tocá-la, levar muita picada de mosquito, sujar os pés e as mãos de lama.

Se quer saber como um recife de coral funciona, tem de se molhar. Botar um cilindro nas costas, regulador na boca, e cair na água.

Então, seja criativo. Favoreça o acaso. Fique conectado. Leia sobre tudo. Converse com todo mundo. Viaje sempre que possível, mas não seja apenas um turista. Aprenda sobre como as outras pessoas pensam e vivem diferente de você. Escute todas as opiniões. A peça que falta para o seu quebra-cabeça pode estar na cabeça de outra pessoa, do outro lado do mundo. Imagine só!

Abraços a todos.