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DIETA IMPORTADA

Herton Escobar

28 Outubro 2010 | 09h22

FOTO: JONNE RORIZ/AE

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Você sabia que quase tudo que se come no Brasil é comida “estrangeira”? Que quase nada do que você coloca no seu prato todos os dias tem raízes na biodiversidade nacional? Nem mesmo o arroz e o feijão? Nem a picanha? Nem a alface?

Pois é. Tudo isso é cultivado no Brasil hoje, obviamente, mas não foi sempre assim. Apesar de ser o país com a maior biodiversidade do planeta, a esmagadora maioria das plantas e animais que compõem a dieta brasileira e que sustentam o agronegócio brasileiro é de origem estrangeira. São todas espécies “exóticas”, que não existiam originalmente no território brasileiro e foram trazidas de outros países e outros continentes nos últimos 500 anos, desde o Descobrimento.

O arroz é da Ásia. O feijão veio de várias regiões da América Latina e também da China e da Europa. O café é nativo da Etiópia. O gado bovino também é estrangeiro: A maior parte do rebanho brasileiro é de raças zebuínas, originárias da Índia. A outra parte é de raças europeias. E por aí vai … A soja também é asiática. Assim como a cana-de-açúcar.
As únicas plantas genuinamente brasileiras importantes na alimentação são pouquíssimas. Basicamente, mandioca (importantíssima na dieta do Norte e Nordeste). Além de amendoim e algumas frutas, como abacaxi, caju e maracujá.

Normalmente, isso seria apenas uma curiosidade. Mas ocorre que este é um dos temas críticos na discussão de um protocolo internacional de regras sobre acesso e repartição de benefícios oriundos da utilização de recursos genéticos da biodiversidade … (pausa para respirar) … que está sendo negociado na décima Conferência das Partes (COP 10) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) em Nagoya, no Japão, onde eu estou … (ufa!)

O propósito do protocolo, colocado de forma bem simplificada, é reforçar a soberania dos países sobre a biodiversidade de seus territórios e garantir que os benefícios oriundos do uso dessa biodiversidade por outros países sejam compartilhados com o país de origem. Por exemplo, se uma empresa estrangeira usa uma planta brasileira para desenvolver uma droga, ela teria de repartir os lucros dessa droga com o Brasil — e, eventualmente, também, com as populações tradicionais que já usavam a tal planta para fins medicinais …  sem as quais a tal empresa nem saberia que a tal planta existia ou servia para curar alguma coisa.

Ok. Mas quando se fala em “plantas”, isso inclui a soja, o arroz e o feijão? Nesse caso, seria o Brasil que teria de pagar royalties (ou algum outro tipo de compensação) para os países de origem dessas espécies. Não só o Brasil, mas praticamente todos os países fora da África, principalmente … Por isso há uma preocupação muito grande de como o uso de recursos genéticos na agricultura (passado, presente e futuro) será tratado no protocolo.

É um tema complexo e o resultado das negociações só será conhecido amanhã (sexta-feira, 29), na plenária final da COP 10.

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