DIFERENÇAS IDÊNTICAS

Herton Escobar

28 Abril 2010 | 18h48

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Dois gêmeos idênticos. Um único genoma. O mesmo risco genético para esclerose múltipla. Mas um desenvolve a doença e o outro, não. Por quê?

Em busca de uma resposta, cientistas nos Estados Unidos sequenciaram o DNA de três pares de gêmeos idênticos e publicaram os dados na edição de hoje da revista Nature. Esperavam achar alguma diferença que explicasse porque só um dos gêmeos tem esclerose múltipla. Não encontraram nada – o que, nesse caso, foi um resultado surpreendente.

A esclerose múltipla é uma doença autoimune em que células do sistema imunológico, de repente, começam a atacar a capa de mielina que protege os neurônios no cérebro e na medula espinhal, comprometendo a transmissão dos impulsos nervosos necessários para o funcionamento do organismo. As causas são desconhecidas, mas sabe-se que há fatores de risco genéticos e ambientais que aumentam as chances de desenvolver a doença.

“O mais interessante nesse experimento é que os gêmeos idênticos carregam os mesmos fatores de risco, tanto genéticos quanto ambientais”, disse ao Estado o pesquisador Stephen Kingsmore, do National Center for Genome Resources, em Santa Fé, no Novo México (EUA), que assina o trabalho na Nature. “Então por que só um desenvolveu a doença?”

O estudo fez uma varredura profunda na genética de três pares de gêmeos – dois de mulheres e um, de homens. Além de sequenciar o genoma propriamente dito (a sequência de letras químicas do DNA contido no núcleo celular), os pesquisadores investigaram também o epigenoma e o transcriptoma de células do sistema imunológico envolvidas na doença (chamadas CD4+).

O epigenoma refere-se a um conjunto de marcações moleculares que modulam a atividade dos genes e que não são herdadas – ou seja, variam de pessoa para pessoa, inclusive entre gêmeos idênticos. Já o transcriptoma refere-se ao RNA mensageiro – as mensagens moleculares que são “transcritas” do genoma para orientar a fabricação de proteínas –, que também pode variar entre pessoas.

Ao todo, foram sequenciadas 200 bilhões de “letras químicas” dos seis gêmeos. “É a primeira vez que um estudo sequencia os três níveis do genoma”, afirma Kingsmore.
Mesmo assim, nenhuma diferença foi encontrada que pudesse explicar a doença. O que isso significa? “Pode ser que a diferença esteja em alguma outra ‘camada’ do genoma à qual ainda não tivemos acesso. Ou pode ser um que o ‘gatilho’ seja algum fator ambiental que ainda não identificamos”, especula Kingsmore. “Simplesmente não sabemos.”

Os fatores de risco genéticos conhecidos incluem 13 mutações pontuais do tipo SNP (“snips”), caracterizadas pela troca de uma única letra do genoma. Cada par de gêmeos que participou do estudo compartilha até 10 dessas mutações. Já os fatores de risco ambientais são mais abstratos; podendo envolver até o tempo de exposição ao sol da mãe durante a gravidez ou dos filhos, durante a infância.

Mesmo tratando-se de gêmeos idênticos, a semelhança genética entre os irmãos surpreendeu os pesquisadores. Os “snips” eram exatamente os mesmos. As marcas epigenéticas eram também quase idênticas (em um par de gêmeos foram encontradas apenas duas diferenças). E os transcriptomas eram também tão semelhantes que, estatisticamente, as semelhanças podem ser consideradas irrelevantes. “Tudo isso é muito inesperado”, afirma Kingsmore. Imagine só!