Disney, sarampo, e a fantasia da vacina que causa autismo

Disney, sarampo, e a fantasia da vacina que causa autismo

O mundo de fantasia da Disneylândia, quem diria, virou epicentro de uma epidemia real de sarampo, com o roteiro de um conto de fadas pseudocientífico que diz que vacinar crianças pode causar autismo. Cerca de 80 pessoas já foram infectadas nos EUA, a maioria delas na Califórnia

Herton Escobar

26 Janeiro 2015 | 08h00

Welcome to The Magic – A Disneyland Timelapse from Givot on Vimeo

O mundo de fantasia da Disneylândia, quem diria, virou epicentro de uma epidemia real de sarampo, com o roteiro de um conto de fadas pseudocientífico que diz que vacinar crianças pode causar autismo.

A lenda surgiu em 1998, com a publicação de um artigo científico na revista The Lancet, que sugeria haver uma relação de causa e efeito entre a vacina do sarampo e o autismo. Vários outros estudos, bem maiores e melhores, foram então feitos nos anos seguintes para verificar essa hipótese, e nenhum deles achou qualquer sombra de evidência científica de que ela seja verdadeira.

Eventualmente, descobriu-se que o estudo original não só estava errado, mas era basicamente uma fraude, com várias informações adulteradas para criar a falsa impressão de que a vacina poderia causar autismo. Não pode! O estudo foi retratado e não tem nenhuma validade científica.

Ainda assim, a lenda segue viva, fomentando um medo infundado de que as vacinas — não só a do sarampo — podem fazer mal à saúde. Consequentemente, muitos pais estão deixando de vacinar seus filhos, e o sarampo voltou a ser um problema de saúde pública nos Estados Unidos, com vários surtos localizados da doença espalhados pelo país nos últimos anos.

O mais recente deles, que está em curso, já contaminou cerca de 80 pessoas em vários estados americanos, principalmente na Califórnia, segundo informações do jornal Los Angeles Times. Segundo as autoridades de saúde locais, o foco de dispersão da doença foram os parques da Disneyland e Disney California Adventure, por onde várias das crianças e adultos contaminados pelo vírus passaram nos últimos dois meses.

Desprotegidos

Detalhe importante: dos 39 pacientes cujo “status de vacinação” foi verificado até agora, apenas 7 estavam adequadamente imunizados (com as duas doses da vacina), 1 parcialmente imunizado (com apenas uma dose da vacina) e 32 não imunizados (nunca tomaram a vacina), segunda as informações do LA Times.

Os números mostram que a falta de imunização não só coloca em risco a saúde das crianças que não são vacinadas, mas também de todas as pessoas que entram em contato com elas, ao colocar o vírus da doença de volta em circulação na população. Como a vacina não é 100% eficiente (e isso não é segredo), mesmo pessoas imunizadas podem ser contaminadas e ficar doentes quando expostas ao vírus. E um parque de diversões é o local perfeito para isso acontecer — especialmente na Califórnia, que é o epicentro desse movimento “antivacinação” americano.

A vacinação é obrigatória para crianças no Estado, mas os pais podem solicitar uma isenção da lei com base em “crenças pessoais” — por exemplo, a crença fantasiosa de que a vacina causa autismo, para a qual não há um pingo de evidência científica.

É incrível e assustador ver como um único artigo fraudulento, seguido de muita propaganda enganosa, pode se contrapor ao peso das milhões de vidas que já foram salvas pelas vacinas ao redor do mundo nas últimas décadas.

Uma das peças na exposição digital da Bill & Melinda Gates Foundation é o vídeo da música Lean on Me, produzido pelo projeto Playing for Change.

Realidade exposta

Coincidentemente neste mês, a Fundação Bill e Melinda Gates lançou um projeto audiovisual, chamado A Arte de Salvar uma Vida (The Art of Saving a Life), para celebrar a contribuição das vacinas para a saúde global. É uma exposição de 30 obras, incluindo vídeos, fotos e textos de vários artistas internacionais, que podem ser vistas no site da fundação ao longo deste mês e que serão expostas fisicamente amanhã, dia 27, em Berlin, num evento da Gavi Alliance (Aliança Global para Vacinas e Imunização), com o objetivo de levantar fundos para imunizar 300 milhões de crianças até 2020. A fundação espera, com isso, salvar 6 milhões de vidas ao redor do mundo nos próximos cinco anos. 

O acervo do projeto inclui obras de três brasileiros: o fotógrafo Sebastião Salgado, o artista plástico Vik Muniz e a escritora Socorro Acioli.

Sebastião Salgado contribuiu com algumas de suas incríveis fotografias em preto e branco, com imagens de vacinação contra a pólio na África e na Ásia. Uma delas está copiada abaixo; as outras podem ser vistas aqui: http://artofsavingalife.com/artists/sebastiao-salgado/

Vacinação contra a pólio na Somália. Foto: Sebastião Salgado

Vacinação contra a pólio na Somália. Foto: Sebastião Salgado

Vik Muniz produziu especialmente para o projeto uma obra de arte feita com células hepáticas (de fígado) infectadas com o vírus da vacina da varíola. Parece um papel de parede florido, mas na verdade é uma foto de uma colônia de células, cultivada sobre uma moldura e vista por um microscópio. Esse vídeo mostra um pouco mais sobre a obra: http://goo.gl/6kmUpG; e este mostra em mais detalhes como as obras de Muniz são produzidas, em colaboração com um pesquisador do MIT, Tal Danino: http://goo.gl/3NPPnL

Obra de Vik Muniz. Foto: The Art of Saving a Life/Divulgação

Obra de Vik Muniz. As flores são feitas de células hepáticas infectadas com o vírus da vacina da varíola. Foto: The Art of Saving a Life/Divulgação

A escritora cearense Socorro Acioli escreveu um poema no estilo de cordel, contando a história do epidemiologista brasileiro Ciro de Quadros, que nas décadas de 1980 e 1990 ajudou a erradicar a pólio da América Latina, enviando equipes de vacinação para os lugares mais remotos e perigosos do continente. Quadros morreu em junho de 2014, aos 74 anos, como vice-presidente executivo do Instituto de Vacinas Sabin, em Washington. Pouco conhecido no Brasil, ele era um dos epidemiologistas mais admirados do mundo. Sua morte foi noticiada no jornal The New York Times: http://goo.gl/4hP8ip

“Medicina, saneamento, nutrição, educação — todas são componentes interligados e necessários para a prevenção e cura de doenças. Mas há uma ferramenta que se destaca como a mais eficiente: vacinas. Toda criança, não importa onde ou quando ela nasça, tem o direto fundamental à vacinação.” — Dr. Ciro de Quadros, em artigo publicado no jornal digital The Huffington Post, em 2013