DNA FÓSSIL

DNA FÓSSIL

Herton Escobar

07 Fevereiro 2012 | 15h27

Avanços tecnológicos permitem hoje sequenciar o genoma inteiro de uma pessoa com relativa facilidade. E isso já é incrível. Agora imagine sequenciar o genoma inteiro de uma pessoa que viveu até 50 mil anos atrás com a mesma precisão …

Pesquisadores do Instituto Max Planck, na Alemanha, colocaram online hoje a versão mais detalhada do genoma de um hominídeo (um parente extinto dos seres humanos modernos) já produzida até agora. O DNA usado no sequenciamento foi extraído de uma amostra de 10 miligramas de pó de osso, extraída de um pedaço do dedo da mão de um “denisovaniano” — nome dado a uma linhagens de seres humanos arcaicos que viveram na Ásia ao mesmo tempo que os neandertais na Europa. O nome difícil deriva do local onde o fóssil foi encontrado: a Caverna de Denisova, no sul da Sibéria. O osso estava enterrado numa camada de solo datada entre 30 mil e 50 mil anos de idade.

Um rascunho desse mesmo genoma já havia sido publicado no final de 2010, em um artigo na revista Nature. A diferença é que a nova versão tem uma resolução muito maior, o que permite extrair mais informações, com uma confiabilidade muito maior também. No rascunho, a “cobertura” do genoma (como se diz na linguagem técnica) era de 1,9 vez, o que significa dizer que cada letra do genoma foi sequenciada aproximadamente duas vezes. Agora, a cobertura é de 30 vezes, o que significa dizer que cada base (A, T, C ou G) da sequência foi sequenciada 30 vezes. (ou seja: há um grau de certeza muito maior de que a sequência está correta … de que aquele A é mesmo um A, ou que aquele C é mesmo um C, e assim por diante … como se você lesse um mesmo texto 30 vezes para ter certeza de que não há nenhum erro de digitação)


Análises comparativas do genoma indicam que os humanos que viveram naquela caverna entre 30 mil e 50 mil anos atrás representavam um linhagem “irmã” à dos neandertais (muito semelhante, geneticamente, mas suficientemente distinta para ser considerada uma linhagem diferente). Ambas as linhagens foram extintas, eventualmente, com suas populações substituídas pelas do Homo sapiens que migraram da África e dominaram o mundo. Mas deixaram uma herança genética para o homem moderno que pode ser detectada ainda hoje. Segundo os pesquisadores, os “denisovanianos” contribuíram com cerca de 5% do material genético presente no genoma dos atuais habitantes da Melanésia. Assim como os neandertais contribuíram com 1% a 4% do DNA contido nas células de cada europeu e asiático moderno.

Ou seja, o Homo sapiens levou seus parentes “arcaicos” à extinção, mas não sem antes produzir alguns filhotes com eles. Deixando uma herança genética sutil, porém real, que carregamos até hoje dentro de cada uma de nossas células. Imagine só!

(Na foto acima, um dente de hominídeo achado na Caverna de Denisova. CRÉDITO: David Reich et al., Nature)