Elementar, meu caro Higgs

Elementar, meu caro Higgs

Herton Escobar

08 Outubro 2013 | 19h32

http://www.nytimes.com/interactive/2013/10/08/science/the-higgs-boson.html?ref=science&_r=0#/?g=true&higgs1_slide=0

Quer entender o que é e o que faz o tal bóson de Higgs, tema do Prêmio Nobel de Física deste ano? Este infográfico interativo no site do jornal The New York Times é a explicação mais simples e bela que já vi. Se você entende inglês, vai entender também o que é o bóson de Higgs (coisa que não é fácil).

Resumindo em uma frase: o bóson de Higgs é a partícula que confere massa a todas as outras partículas (elétrons, prótons, etc). Assim, ele é uma peça absolutamente fundamental na estrutura e no funcionamento do universo como o conhecemos.


François Englert e Peter Higgs ganharam o Nobel deste ano, muito merecidamente, pela “descoberta teórica” do bóson de Higgs (assim chamado desde então em homenagem ao Peter) e do mecanismo pelo qual ele confere massa às outras partículas (o campo de Higgs, que o vídeo do NYT explica de maneira muito elegante, comparando-o a um campo de neve). Por “descoberta teórica”, entenda-se que eles inferiram a existência do bóson de Higgs por meio de equações matemáticas, aplicadas no contexto das leis da física que utilizamos para descrever a composição da matéria e o funcionamento do universo. É como se eles fossem engenheiros olhando para um prédio de concreto e inferissem que dentro das paredes havia um esqueleto de barras de metal que dava sustentação às paredes. O problema é que eles não tinham um raio X nem uma marreta para olhar dentro das paredes e provar que estavam certos. Então, em teoria, sabe-se há 50 anos que essas barras de ferro existem (ou então o prédio desmoronaria), mas faltava uma prova física para ter certeza — faltava alguém quebrar a parede e pegar uma barra de ferro lá de dentro para todo mundo ver!

A “marreta” necessária para fazer isso só começou a ser inventada 20 anos depois da descoberta teórica de Englert e Higgs, na forma de um gigantesco acelerador de partículas subterrâneo que veio a ser conhecido como o Grande Colisor de Hádrons (LHC, em inglês), construído e gerenciado pela Organização Europeia para Pesquisas Nucleares (CERN), na fronteira da França com a Suíça. Nada mais nada menos do que o maior e mais caro experimento científico de todos os tempos, construído para acelerar prótons até velocidades muito próximas da luz e chocá-los uns contra os outros. Nessas colisões, são produzidas outras partículas — entre elas, muito raramente, se a teoria estivesse correta, o tal do bóson de Higgs.

Todo esse esforço gigantesco de ciência, engenharia e genialidade culminou, no ano passado, com a divulgação de dados do LHC que confirmavam — não com 100% de certeza, mas de maneira bastante convincente — a existência da misteriosa partícula. Mantendo com a minha analogia, o CERN foi lá, marretou a parede alguns bilhões de vezes, saiu com um monte de fragmentos de barra de ferro na mão e anunciou: Englert e Higgs estavam certos, o bóson de Higgs realmente existe!

Uma descoberta que vale um Nobel, sem dúvida nenhuma. Numa nota pessoal, porém, achei uma injustiça o CERN não ser agraciado com o prêmio também; afinal, se não fosse pela descoberta experimental do LHC, a descoberta teórica de Englert e Higgs não seria confirmada e não poderia ser premiada. Se o IPCC mereceu um Nobel da Paz por confirmar cientificamente a influência humana no aquecimento global, acho que o CERN mereceria um Nobel de Física por confirmar a existência de uma das partículas mais elementares do universo. Não?

FOTO: Vista do CMS, um dos detectores de partículas do LHC. Crédito: CERN