Empresa aérea veta transporte de animais de pesquisa

Empresa aérea veta transporte de animais de pesquisa

Latam alega "compromisso com o meio ambiente e as espécies que fazem parte dele". Cientistas dizem que decisão poderá dificultar pesquisas biomédicas no Brasil.

Herton Escobar

23 Junho 2016 | 16h26

CAMUNDONGO0020/CAMPINAS/SP 05/07/2012/ESPECIAL DOMINICAL/OE/EXCLUSIVO/VIDA&.Na foto o Biotério com camondongos especiais no laboratório de Modificação de Genomas .FOTO EPITACIO PESSOA/AE

Camundongos no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio). Foto: Epitacio Pessoa/Estadão

A empresa aérea Latam (nascida recentemente da fusão entre a brasileira TAM e a chilena LAN) decidiu proibir o transporte de animais de pesquisa em suas aeronaves.

“Devido ao compromisso da Latam Cargo com o meio ambiente e as espécies que fazem parte dele, a equipe de Operações de Cargas não deverá aceitar e nem transportar nenhum tipo de animal vivo cuja a finalidade de transporte seja para pesquisa e experimentos em laboratório ou qualquer outro tipo de estudo científico”, diz um documento interno da Latam Cargo, datado de 7 de junho, obtido pela blog (imagem abaixo).

Procurada pela reportagem, a empresa respondeu com a seguinte nota: “A Latam Cargo Brasil informa que, desde o início do mês de junho, não transporta mais animais para fins de pesquisa científica. Esta prática já tinha sido adotada há três anos pela TAM Cargo e, com o lançamento da nova marca Latam, foi estendida para todo o grupo”


Cientistas dizem que a medida poderá prejudicar as pesquisas biomédicas no Brasil.

“Essa medida impacta a pesquisa científica no país, pois cientistas nacionais necessitam de animais de laboratórios (ratos e camundongos essencialmente) provenientes de centros especializados no país e no exterior para desenvolver pesquisa com câncer, células tronco, etc.”, avalia o pesquisador da UFRJ, ex-coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA) e atual diretor de Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde do CNPq, Marcelo Morales. “E o compromisso da Latam com a pesquisa e a saúde no Brasil, e com os brasileiros? O uso de animais para propósitos científicos no Brasil é regulamentado pela Lei 11.794/2008, e nenhum pesquisador pode utilizar animais sem que tenha autorização prévia de comissões de ética.”

A Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), ao ser informada, emitiu o seguinte posicionamento:

“A empresa aérea LATAM acaba de anunciar a restrição do transporte de animais destinados à pesquisa e a comunidade científica vê com preocupação esta ação.

Além da produção de vacinas, animais de laboratório são utilizados para geração de conhecimento e produção de tecnologias que beneficiam a todos, inclusive os diretores da LATAM. Próteses ortopédicas e cardíacas, utilização de células-tronco na recuperação de lesões, compreensão dos mecanismos de centenas de doenças, produção de soros e medicamentos, desenvolvimento de novos medicamentos e técnicas de medicina reprodutiva, terapias para o câncer e outras doenças debilitantes, além de tantas outras áreas da medicina humana e veterinária são dependentes de animais.

É importante mencionar que a promoção do bem-estar dos animais utilizados em pesquisa científica influencia positivamente a qualidade dos resultados. Desta forma, qualquer tipo de maus tratos é inadmissível do ponto de vista científico além do ético.

Animais são utilizados por um único e fundamental motivo: necessidade. Tanto para a medicina humana como veterinária há a necessidade de gerar conhecimento e desenvolver tecnologias para promover a saúde.

Quando se analisa a necessidade da utilização e, consequentemente, do transporte de animais para ciência, deve-se questionar o porquê da LATAM não ter restrição semelhante aplicada a animais de circo, animais de zoológico, animais de rodeio e até mesmo algumas raças de cães e gatos criados e comercializados unicamente para satisfazer um prazer humano, quando milhares de animais desta espécie estão abandonados e necessitam de um lar. Animais na ciência tem seu uso totalmente diferenciado dos citados anteriormente pois são pautados na necessidade. Uma vez não havendo mais esta necessidade, os cientistas serão os primeiros a deixar de usá-los.”

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Documento da Latam, informando sobre a proibição do transporte de animais. Foto: Reprodução