Estudo bloqueia tumores e reverte sintomas de Parkinson em camundongos

Estudo bloqueia tumores e reverte sintomas de Parkinson em camundongos

Animais que receberam injeções de células-tronco no cérebro recuperaram o controle motor que haviam perdido por causa de lesões que simulam o efeito da doença humana. Células foram pré-tratadas com droga para evitar formação de tumores. Dia 11 de abril é o Dia Mundial do Parkinson.

Herton Escobar

08 Abril 2015 | 18h35

Neurônios derivados de células-tronco embrionárias de camundongos, in vitro, com marcações fluorescentes para verificar sua característica dopaminérgica. Foto cedida pelos pesquisadores.

Neurônios derivados de células-tronco embrionárias de camundongos, in vitro, com marcações fluorescentes para verificar sua característica dopaminérgica. Foto cedida pelos pesquisadores.

O risco de formação de tumores sempre foi um dos principais obstáculos ao uso clínico de células-tronco embrionárias (CTEs). Embutido na característica que torna essas células potencialmente tão incríveis para aplicação no tratamento de doenças — sua capacidade de se dividir e se transformar em qualquer tipo de tecido —, está o perigo de uma diferenciação e multiplicação descontrolada, que pode resultar em um câncer, no lugar de uma cura.  Um efeito-colateral severo demais para ser ignorado; razão pela qual as pesquisas nessa área avançam de maneira tão cautelosa.


Pesquisadores brasileiros, porém, podem ter encontrado uma maneira de manter essas células sob controle, extraindo apenas aquilo que elas têm de melhor a oferecer, e bloqueando aquilo que elas têm de pior. Em um estudo publicado na revista Frontiers in Cellular Neuroscience, cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descrevem um novo método de cultivo capaz de inibir o desenvolvimento de tumores, depois que as células são injetadas no organismo.

O “ingrediente secreto” da receita — que de secreto, na verdade, não tem nada — é a mitomicina, ou MMC, uma droga antitumoral que já é usada há vários anos para o tratamento de tumores sólidos do pâncreas e do sistema gástrico. Os pesquisadores adicionaram essa substância ao meio de cultura das células-tronco embrionárias, imaginando que ela poderia inibir a tendência das CTEs de formar tumores. E deu certo — pelo menos em camundongos.

Ocorreu uma melhora muito significativa, e que se manteve ao longo do tempo. Jean-Christophe Houzel, pesquisador da UFRJ

O experimento foi feito usando um modelo animal de Parkinson, com camundongos que tiveram o cérebro lesionado de uma maneira específica para mimetizar os efeitos da doença no cérebro humano. Uma substância tóxica que mata seletivamente os neurônios dopaminérgicos (produtores de dopamina) é injetada numa área do cérebro envolvida com o controle de movimentos, simulando o que ocorre no cérebro de pacientes com Parkinson.

Camundongos lesionados (“com Parkinson”, por assim dizer) que receberam injeções de CTEs pré-tratadas com mitomicina recuperaram quase que completamente o controle dos movimentos que haviam perdido (foram “curados” do Parkinson, por assim dizer).

“Ocorreu uma melhora muito significativa, e que se manteve ao longo do tempo”, disse ao Estado Jean-Christophe Houzel, pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e co-orientador do trabalho, realizado pela aluna de doutorado Mariana Acquarone. Cada animal recebeu uma injeção com 500 mil células-tronco embrionárias murinas (de camundongo, não humanas) diretamente no local da lesão.

Aumentamos muito a segurança dessas células no que diz respeito ao risco de formação de tumores. Stevens Rehen, pesquisador da UFRJ

Os animais que receberam CTEs não tratadas com mitomicina, por sua vez, até melhoraram um pouco, no início, mas todos desenvolveram tumores no cérebro e acabaram morrendo algumas semanas depois. Enquanto que os camundongos que receberam uma injeção inócua, sem células-tronco, continuaram do mesmo jeito: não desenvolveram tumores, tampouco melhoraram da lesão.

As células não tratadas tipicamente dão origem a tumores chamados teratomas, compostos de vários tipos celulares.

“Células pluripotentes podem virar qualquer coisa, e a chance de elas virarem um tumor é grande”, explica Stevens Rehen, pesquisador do ICB-UFRJ e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). “Temos um caminho longo para percorrer até o uso clínico dessas células, e para avançar nele precisamos eliminar esse risco (de formação de teratomas). Nosso trabalho oferece uma prova de princípio de que é possível fazer isso em camundongos.”

As células pré-tratadas com mitomicina não só não formaram tumores como passaram a produzir quatro vezes mais dopamina do que as outras. Os pesquisadores não sabem porquê, mas é algo que deverá investigado nas próximas etapas da pesquisa.

Ressalvas importantes

Apesar dos resultados positivos, Houzel destaca que ainda é cedo para testar essas células em pacientes humanos. Uma das dúvidas em aberto é se as células-tronco ficam restritas ao local da lesão, onde são injetadas, ou migram para outras regiões do cérebro e do corpo. Para entender isso, os cientistas planejam reproduzir o experimento, acrescentando um agente marcador que permita rastrear as células no organismo.

É importante destacar, também, que a lesão feita no cérebro dos camundongos imita os efeitos do Parkinson em seres humanos (induzindo a morte seletiva de neurônios dopaminérgicos), mas não reproduz necessariamente uma série de outros fatores que podem estar envolvidos na doença, cujas verdadeiras causas e mecanismos ainda são muito pouco conhecidos. Assim, não há como garantir antecipadamente que a células terão o mesmo efeito terapêutico nas pessoas.

A grande contribuição do estudo, segundo Rehen, é identificar a mitomicina como um agente inibidor da formação de tumores em células-tronco embrionárias. Ele planeja, agora, testar a eficácia da técnica em células humanas — tanto embrionárias quanto de pluripotência induzida (iPS).

A pesquisa foi 100% desenvolvida no Brasil. Até as células-tronco são brasileiras: da linhagem USP1, desenvolvidas na Universidade de São Paulo. Também participaram do estudo cientistas do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ e do Instituto Oswaldo Cruz.

11 de abril é o Dia Mundial do Parkinson.