Estudo brasileiro na Science comprova capacidade do zika vírus de matar células neuronais humanas

Estudo brasileiro na Science comprova capacidade do zika vírus de matar células neuronais humanas

Já o vírus da dengue não tem a mesma capacidade, segundo pesquisa realizada com "minicérebros" no Rio de Janeiro. Estudo soma-se a uma série de contribuições importantes da ciência nacional para a compreensão da epidemia de zika e das má-formações congênitas associadas a ela.

Herton Escobar

11 Abril 2016 | 08h35

Imagem de microscopia mostra partículas de zika vírus (as bolinhas laranjas) ao redor de uma neuroesfera de células humanas. Crédito: Rodrigo Madeiro/IDOR

Imagem de microscopia mostra partículas de zika vírus (as bolinhas laranjas) ao redor de uma neuroesfera de células humanas. Crédito: Rodrigo Madeiro/IDOR

Não é comum ver o nome de cientistas ou instituições brasileiras em destaque nas revistas de maior impacto científico do mundo, como Science e Nature. Na maioria dos casos, eles aparecem como coadjuvantes de algum trabalho multicêntrico internacional — o que não é nenhum desmérito; pelo contrário, visto que essas colaborações são absolutamente essenciais para a evolução da ciência nacional.
Mais raro é ver algum trabalho nessas revistas em que o autor principal é um brasileiro. E mais raro ainda é encontrar um trabalho feito 100% no Brasil — como este, que acaba de ser publicado online pela Science, 100% “made in Brazil”, por pesquisadores da UFRJ e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR): Zika virus impairs growth in human neurospheres and brain organoids. Aliás, menos de um mês depois de outro trabalho importante, também liderado por brasileiros, ter sido publicado na mesma revista, com uma análise comparativa de sete genomas de zika vírus: Zika virus in the Americas: Early epidemiological and genetic findings; liderado por pesquisadores do Instituto Evandro Chagas, no Pará.
Os resultados preliminares da pesquisa carioca já haviam sido divulgados cerca de um mês atrás, na plataforma Peer J, comprovando que o vírus da zika tem a capacidade de infectar e matar células neuronais in vitro (leia a reportagem aqui: http://goo.gl/5cKvSN). Agora, na Science, o trabalho traz um complemento importante, mostrando que o mesmo não ocorre com o vírus da dengue, apesar de ele ser extremamente semelhante ao da zika. Ou seja: os pesquisadores repetiram os experimentos com o vírus da dengue, mas só as células infectadas pelo zika tiveram sua morfologia alterada ou morreram. Mais um indício de que há,  realmente, algo diferente no vírus da zika que o torna especialmente perigoso para o desenvolvimento do sistema nervoso central — podendo levar à microcefalia e outras má-formações congênitas em bebês, além da síndrome de Guillain-Barré e outras complicações em adultos.
Leia também no blog: Cara a cara com o zika vírus
O estudo foi realizado com os chamados “minicérebros”, que são esferas de células-tronco neuronais obtidas a partir de uma técnica chamada iPS, em que células adultas são induzidas a se transformar em células-tronco pluripotentes in vitro, mimetizando a estrutura de um cérebro humano embrionário.
Resposta à altura
O autor principal é o neurocientista Stevens Rehen (que apesar do nome, é 100% brasileiro). Segundo a Academia Brasileira de Ciências, onde será realizada uma entrevista coletiva sobre a pesquisa hoje, dentre os 170 mil artigos já publicados pela revista Science em 136 anos de existência, apenas 84 tinham autores ligados a instituições brasileiras, e apenas 36 destes foram feitos por cientistas baseados exclusivamente no Brasil.
Outros grupos brasileiros também emplacaram artigos importantes sobre o zika e a microcefalia recentemente na revista The Lancet, uma das mais respeitadas da literatura científica mundial na área médica. Além de vários outros trabalhos publicados desde o início da epidemia, em diversas revistas, abordando diferentes aspectos do vírus e da doença. Todas essas publicações podem ser encontradas na Biblioteca Digital Zika, organizada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Palmas para a ciência brasileira, que, apesar de todas as dificuldades, vem produzindo resultados de qualidade e respondendo com competência a uma das maiores emergências de saúde pública que esse país já vivenciou. (Detalhe: Poderia fazer muito mais ainda se tivesse mais dinheiro, melhor infraestrutra e menos burocracia? Com certeza!)
Biblioteca Zika Unicamp
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