EU, ROBÔ. VOCÊ, TAMBÉM.

Herton Escobar

27 Julho 2010 | 12h08

organsThoraxAbdomen

Você já parou para pensar por que seus pés e mãos costumam ficar mais gelados no inverno?

Pois bem, trata-se de uma reação automática de defesa do organismo. Você nem percebe, mas seu corpo está todo revestido de sensores biológicos de temperatura conectados ao seu cérebro. Se o seu cérebro percebe que você está entrando numa gelada, ele automaticamente reduz o fluxo de sangue na “periferia” e concentra a distribuição de calor do corpo no tórax e no abdômen, onde ficam os órgãos vitais: pulmão, fígado, rins, intestino, etc. A lógica é simples: melhor viver sem um dedão do que morrer com ele!

Não que um dedão não seja importante, claro. Mas dá para viver sem ele. Não é um órgão vital. E o cérebro sabe muito bem disso. Manda o sangue quente para onde ele é mais necessário.

E o mais legal de tudo é que você, de fato, não precisa pensar nada sobre isso. Seu corpo faz tudo sozinho!

Aliás, é inacreditável a quantidade de coisas que o seu organismo faz “pelas suas costas”, sem que você precise tomar consciência delas. Neste exato momento, seu coração está batendo, seus pulmões estão inflando e desinflando, seu estômago e seus intestinos estão processando o alimento que você comeu na última refeição, sua medula óssea está produzindo células do sangue de acordo com a necessidade, e células especializadas do sangue estão vasculhando seu corpo a procura de bactérias, vírus e outro microrganismos perigosos, no melhor estilo “seek and destroy”.

Suas glândulas linfáticas, comandadas pelo cérebro, que recebe informações do sistema nervoso como um todo, estão produzindo uma série de hormônios, enzimas e outras moléculas essenciais para o funcionamento do organismo, de acordo com a necessidade de cada uma delas. Células especializadas do seu pâncreas estão produzindo insulina, de acordo com a quantidade de glicose que você comeu. Fibras musculares que talvez tenham sido rompidas no futebolzinho do último fim de semana estão sendo reparadas. E por aí vai….. eu poderia ficar horas aqui escrevendo um milhão de coisas que o seu corpo está fazendo por conta própria neste exato momento, sem que você precise pensar nem um segundo sobre isso.

Nesse sentido, nossos corpos são como robôs biológicos quase autônomos. Claro que temos uma consciência personalizada, que nos permite pensar, raciocinar e tomar decisões cognitivas mais complexas. Mas as funções vitais do dia a dia do organismo são quase que totalmente automatizadas. Funcionamos como uma máquina, muito mais complexa até do que um computador. Imagine só!

Não só isso, mas cada uma das trilhões de células do seu organismo possui um software genético de controle que responde a estímulos, interage diretamente com o organismo e que, para nossa sorte, está equipado com um “botão de autodestruição”, no caso de alguma coisa dar errado – um processo conhecido como apoptose, ou suicídio celular.

Milhões de células estão se multiplicando a todo momento no nosso corpo. A cada multiplicação, o genoma inteiro da célula precisa ser copiado. E por mais eficiente que seja esse processo de cópia, ele não é perfeito. Muitas vezes ocorrem erros: um T no lugar de um G, uma letra faltando e coisas desse tipo. Caso um desses erros ocorra em um gene essencial, pode ser um problema sério.

Por exemplo, se houver um erro (mutação) no gene p53, a célula pode perder o controle e começar a se multiplicar descontroladamente, formando um tumor. É por isso que grande parte dos casos de câncer envolvem uma mutação neste gene. Em células sadias, o p53 funciona como um freio genético, que controla a frequência de multiplicação da célula. Geralmente, quando há um problema nesse freio (ou em outros genes essenciais), a própria célula percebe isso e comete suicídio. Mas, às vezes, o sistema de controle do freio também falha …. a apoptose não acontece, a célula multiplica-se loucamente e forma-se um tumor. E aí é preciso a medicina entrar em ação para evitar que uma única célula defeituosa destrua todo o organismo. Imagine só!

Além de tudo que eu mencionei acima, portanto, pode ter certeza que várias de suas células estão cometendo suicído neste momento, pelos mais variados motivos. Sorte sua! É graças ao sacrifício delas que você continua vivo.

Abraços a todos.

ACIMA: Foto de uma das “peças” da exposição Corpos, que pode ser vista na Oca do Ibirapuera. Quem não viu, veja. Quem já viu, veja de novo.