EVOLUÇÃO NAS ALTURAS

EVOLUÇÃO NAS ALTURAS

Herton Escobar

02 Julho 2010 | 15h09

climber

Sempre que a seleção brasileira vai jogar em La Paz, na Bolívia, entra em campo também o problema da altitude. A capital boliviana fica 3.600 metros acima do mar e, quanto mais alto, mais rarefeito é o ar, mais difícil é respirar, mais rápido você cansa. (A altitude de São Paulo, comparativamente, é de 760 metros.) Trata-se de uma reação fisiológica automática do organismo. Mas então por que os jogadores bolivianos não sentem esse problema?

E aqueles tibetanos e nepaleses, então, que vivem a mais de 4 mil metros de altitude na região do Himalaia, numa boa, e ainda carregam fardos enormes de equipamentos para os alpinistas estrangeiros, que precisam até de oxigênio enlatado para subir as montanhas? Como é que eles conseguem viver numa altura dessas sem problemas?

Se para a maioria de nós essa pergunta representa apenas a uma curiosidade, para a ciência, é uma pergunta séria — cuja resposta, aliás, serve como ótimo exemplo para entender a evolução por seleção natural. Tem de haver algum componente genético envolvido nesse história. Porque uma coisa eu garanto: força de vontade para subir montanha não basta.

Um estudo publicado na edição de hoje da revista Science joga um pouco mais de luz sobre esse mistério. Pesquisadores compararam o genoma de representantes de três populações: dinamarqueses, chineses da etnia han e 50 tibetanos que vivem em altitudes elevadas do Planalto to Tibet. (Os han e os tibetanos têm ancestralidade comum. Os dinamarqueses servem apenas como grupo controle.)

Resultado: identificaram no genoma dos tibetanos uma variante do gene EPAS1 que evoluiu (mudou) rapidamente desde que as duas linhagens (tibetanos e hans) divergiram, uns 2.750 anos atrás. Se o gene mudou, e continua funcionando, é porque ele foi selecionado para alguma função importante, relacionada a alguma condição ambiental específica àquela população. Neste caso: regulação da produção de glóbulos vermelhos (e consequentemente, de hemoglobina) em condições de baixa concentração de oxigênio (hipóxia).

Pessoas com essa versão “montanhista” do gene produzem menos glóbulos vermelhos em condições de hipóxia do que pessoas com a versão “tradicional” do mesmo gene. Mas peraí…. não deveria ser o contrário? Minha primeira reação seria pensar que, quando a concentração de oxigênio é menor, o ideal seria produzir mais glóbulos vermelhos para transportar o pouco oxigênio disponível com mais eficiência.

Em princípio, sim. Mas há um limite para isso. Se você produz glóbulos vermelhos demais, seu sangue começa a ficar viscoso (mais grosso) e isso se torna prejudicial à saúde. Estudos indicam que níveis elevados de hemoglobina em grávidas prejudicam o desenvolvimento embrionário e aumentam a mortalidade pré-natal.

A adaptação evolutiva dos tibetanos, portanto, consiste em produzir quantidades normais de glóbulos vermelhos, apesar da altitude. Mesmo vivendo 4 mil metros ou mais acima do nível do mar, a concentração de glóbulos vermelhos no seu sangue é equivalente à de alguém que vive na beira da praia. Imagine só!

Mas atenção, pois esse é um ponto crucial da teoria evolutiva: o fato dos tibetanos viverem na altitude não CAUSOU a mutação no gene EPAS1. Essa mutação já existia e foi SELECIONADA NATURALMENTE ao longo de muitas gerações por ser vantajosa para aqueles que já a carregavam em seu genoma para começo de conversa. Em outras palavras: quando a primeira população de tibetanos chegou para viver aos pés do Himalaia, algum ou alguns deles já tinham a mutação e passaram-na para seus descendentes. Como essas pessoas eram melhor adaptadas àquele ambiente de hipóxia, elas viveram mais, se reproduziram mais, e assim o gene, com o tempo, se espalhou e se fixou por toda a população.

Essa mesma mutação certamente ocorre aleatoriamente em pessoas do mundo todo. A não ser que você viva acima de 4 mil metros de altitude, porém, ela não oferece vantagem nenhuma e passa totalmente despercebida. Ou seja: não é selecionada e acaba desaparecendo. É assim que a evolução funciona.

Abraços a todos.

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FOTO: Alpinista escala montanha no Himalaia com auxílio de oxigênio. (Crédito: Jing Wang)