Exame de DNA compara identidade de tumores originais e reincidentes no cérebro

Exame de DNA compara identidade de tumores originais e reincidentes no cérebro

Herton Escobar

12 Dezembro 2013 | 20h35

FOTO: Imagem do cérebro de um paciente com glioma composto de células tumorais de alto e baixo grau, que podem conter mutações diferentes — e, portanto, responder de forma diferente a um mesmo tratamento. Crédito: Sarah Nelson

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Imagine que você sofreu um assalto e o assaltante foi preso. Alguns anos depois, você é assaltado de novo, no mesmo lugar, mais ou menos do mesmo jeito, e por alguém que se parece bastante com o bandido “original”, mas você não tem certeza se é a mesma pessoa. Como saber? Um teste de DNA talvez ajude.

Pois foi o que fizeram pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) e colaboradores num estudo publicado na revista Science … só que com tumores cerebrais (gliomas) em vez de bandidos. Os cientistas queriam saber qual era o grau de parentesco genético, por assim dizer, entre gliomas originais e gliomas reincidentes, que aparecem depois de o paciente já ter passado por cirurgia e quimioterapia para eliminação do tumor original. Para isso sequenciaram o genoma (mais especificamente o “exoma”, que refere-se apenas às partes do genoma que efetivamente codificam proteínas) dos tumores originais e reincidentes de 23 pacientes diagnosticados com gliomas de grau 2 (numa escala de gravidade que vai de 1 a 4).


Em outras palavras, fizeram um exame de DNA para saber se o “bandido” era o mesmo nos dois casos, e descobriram que sim, mas também que não. Apesar de os tumores reincidentes serem claramente derivados dos tumores originais (nascidos de células tumorais que sobreviveram à cirurgia e à quimioterapia sem serem detectadas), muitas das mutações encontradas no segundo tumor eram diferentes das do primeiro. Ou seja: não era mais o mesmo bandido, mas um filho dele, com novas características genéticas — o que significa que o tratamento também precisa ser diferenciado.

Os pesquisadores detectaram 33 mutações nos tumores originais, das quais 54% em média continuavam presentes nos tumores reincidentes do mesmo paciente. Todas as outras mutações estavam presentes apenas em um ou no outro. Em 43% dos casos, pelo menos metade das mutações do tumor original não estavam presentes no tumor reincidente, “sugerindo que os tumores reincidentes são frequentemente semeados por células derivadas do tumor inicial em seus estágios iniciais de evolução”, apontam os pesquisadores.

Outro fator investigado pelos cientistas foi o efeito da droga temozolomida (TMZ) sobre esses tumores reincidentes. A TMZ é muitas vezes administrada ao paciente após a intervenção cirúrgica para remoção do tumor, com o intuito de destruir qualquer célula tumoral que tenha permanecido no cérebro. Por ser uma droga que age no DNA das células (mutagênica), porém, havia a suspeita de que ela poderia induzir mais mutações, sem necessariamente eliminar as células cancerígenas. E as preocupação parecem ser válidas: em 6 dos 10 pacientes que foram tratados com TMZ, os tumores reincidentes estavam “hipermutados”  e evoluíram para uma forma mais agressiva de glioma. Imagine só!