FÁBRICA DE SONHOS

FÁBRICA DE SONHOS

Herton Escobar

04 Agosto 2010 | 12h35

brain

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Vários estudos publicados recentemente, inclusive por pesquisadores brasileiros (vejam matéria publicada na semana passada pela minha colega Afra Balazina), demonstram fortemente que os sonhos servem como um ferramenta cognitiva de consolidação de memórias e aprendizado. Na prática, isso quer dizer que pessoas que sonham com algo que aprenderam durante o dia “guardam” melhor essa informação para o dia seguinte … e talvez para o resto da vida, se a informação for suficientemente relevante.

Por exemplo: se você tem uma aula de matemática durante a tarde e sonha com as fórmulas durante a noite, tem melhores chances de lembrá-las para a prova no dia seguinte. Tanto que muitos neurocientistas (e também muitos estudantes, por experiência própria) recomendam tirar uma soneca depois de aprender alguma coisa, para fixar melhor as informações. (Na verdade, o termo “aprender” deve ser usado com cautela aqui, pois você só aprende mesmo algo se for capaz de lembrar esse algo depois…. caso contrário, você não aprendeu a informação, ela simplesmente “entrou por aqui e saiu por ali”, como dizia minha mãe nos tempos de escola).

Isso serve para tudo na vida. Não só para provas de matemática, mas para manobras de skate, golpes de tae kwon do, receitas de bolo, nomes, rostos, filmes, livros, passagens secretas no videogame, etc, etc, etc…… Qualquer tipo de informação. Não que seja OBRIGATÓRIO sonhar com algo para lembrar deste algo depois. Mas aparentemente ajuda.

O que me fez pensar … Eu sou tão esquecido que na maioria das noites não lembro dos meus próprios sonhos. Não sei se uma coisa tem a ver com a outra. Mas dos poucos sonhos que me lembro, quase nenhum tem qualquer relação com acontecimentos do dia a dia. Na maior parte, devaneio total. Roteiros dignos de Hollywood. Muitas vezes estrelados por personagens totalmente fictícios ou por pessoas do passado que eu nem lembrava que existiam. Sei lá de onde é que elas aparecem.

O que me fez pensar também sobre o que escrevi três posts atrás, comparando o funcionamento do nosso organismo ao de um robô biológico. Pois imagine só: Todas as noites, seu cérebro inventa um sonho na sua cabeça, de forma aparentemente aleatória e totalmente autônoma. Sonhos muitas vezes tão “reais” que reagimos fisiologicamente ao que acontece dentro deles, como se fosse verdade. Veja os pesadelos, por exemplo. Se tivéssemos controle sobre nossos sonhos, eles provavelmente não existiriam. Mas não temos … e isso é um tanto assustador.

Afinal de contas, é o cérebro que manda na consciência, ou é a consciência que manda no cérebro? E no inconsciente, então, quem é que manda? Como é que seu cérebro decide com o que você vai sonhar hoje, amanhã, e depois de amanhã?

Se você pudesse ver uma ressonância magnética funcional do seu cérebro enquanto dorme, veria que ele não está dormindo coisa nenhuma. Está funcionando a todo vapor, isso sim! Controlando todas as suas funções vitais, como sempre faz, e reorganizando sinapses para todos os lados, apagando, fixando e organizando uma quantidade inacreditável de informações que entraram pelos seus olhos, ouvidos, nariz, boca e pele durante o dia anterior. O que for relevante, será guardado e vai virar memória. O que não for guardado, será esquecido, como se nunca tivesse acontecido. E nem adianta tentar lembrar de algo que você esqueceu, porque isso é impossível. Se você lembrar, é porque não esqueceu. Só acho que tinha esquecido.

Quem dorme, na verdade, não é o seu cérebro, é VOCÊ … se é que é possível separar uma coisa da outra. Enfim, durma um pouco, pense a respeito e nos falamos depois. Se você se lembrar do que leu aqui amanhã, ótimo. Se não, esquece.

Abraços a todos.