Fapesp é ‘ilha num mar de problemas’, diz José Goldemberg

Fapesp é ‘ilha num mar de problemas’, diz José Goldemberg

Novo presidente da fundação paulista diz que fomento à pesquisa não será afetado pela crise econômica, apesar da queda na arrecadação de impostos impactar seu orçamento

Herton Escobar

08 Setembro 2015 | 20h30

FAP8389  SALESÓPOLIS  08/09/2015    CIDADES  FAPESP José Goldemberg durante cermonia onde foi nomeado presidente da FAPESP, local sede da Fapesp situada na rua PIo XI, 1500 Lapa. FOTO JF DIORIO /ESTADÃO

José Goldemberg, 87 anos, toma posse como presidente da Fapesp. FOTO: JR Diorio/Estadão

A Fapesp é “uma ilha num mar de problemas”, onde pesquisadores podem se sentir a salvo das águas turbulentas que estão abalando as estruturas financeiras da ciência nacional. Palavras do físico José Goldemberg, o novo “capitão” da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo — que promete não reduzir investimentos, apesar da crise econômica.

A retração da economia afeta a receita tributária do Estado (que caiu 3,6% no primeiro semestre deste ano), o que por sua vez impacta diretamente o orçamento da Fapesp (que recebe mensalmente 1% dessa receita para financiar suas atividades). Segundo Goldemberg, o orçamento da fundação está sendo afetado “pouquinho”, na faixa de 4% a 5%. “Mas isso é manejável”, disse-me o físico, de 87 anos, logo após a cerimônia que o empossou como presidente da Fapesp, no lugar do jurista Celso Lafer.

Segundo ele, a fundação está cortando gastos internamente para garantir que os efeitos dessa queda de arrecadação não sejam sentidos no fim da linha pelos cientistas que dependem da fundação para financiar suas pesquisas. “Fazemos absoluta questão de que não seja cortado nada no conteúdo da atividade fim da Fapesp”, que é o fomento à pesquisa. Ele disse ainda que vai buscar “fontes externas” de financiamento, para complementar a receita da fundação — por exemplo, por meio de parcerias com a indústria.


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A fundação investiu R$ 1,153 bilhão em fomento à pesquisa em 2014, comparado a R$ 1,103 bilhão em 2013, segundo o último

Documento

da entidade. Valores equiparáveis ao do orçamento do CNPq, principal agência de fomento à pesquisa do governo federal, que está sendo duramente afetada pelos ajustes fiscais e pela perda de receitas do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

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Goldemberg destacou a necessidade de uma maior aproximação entre as atividades de pesquisa científica e inovação tecnológica, de modo que o conhecimento gerado na academia possa contribuir de forma mais efetiva para desenvolvimento social e econômico do Estado. “Há um problema de estabelecer pontes e um diálogo maior com o setor produtivo”, diz. “Isso não significa, absolutamente, reduzir o apoio financeiro que é dado à pesquisa acadêmica. É uma questão de estabelecer pontes entre a pesquisa acadêmica e suas aplicações.”

“Para os pesquisadores, distinções entre pesquisa científica e tecnológica ou entre pesquisa pura aplicada não são tão importantes. Para eles o importante é identificar um problema e tentar resolvê-lo. As consequências virão depois”, disse Goldemberg, em seu discurso de posse. “O melhor exemplo disto é de Pasteur cujo problema era evitar o azedamento do leite, do vinho e da cerveja. Ele resolveu com o processo que se chama hoje de “pasteurização” que deu origem a toda uma indústria e, ao mesmo tempo, à microbiologia.”

O governador Geraldo Alckmin descreveu a passagem do cargo de Lafer para Goldemberg como uma “transferência de bastão de Neymar para Messi”. Não faltaram dignatários e lideranças científicas à cerimônia de posse do professor, que, beirando seus 90 anos, é um dos cientistas mais admirados e mais politicamente ativos do País — principalmente nos temas ligados a energia, meio ambiente e mudanças climáticas.