EUA e Grã-Bretanha estudam aprovação de embriões humanos com “três pais”

EUA e Grã-Bretanha estudam aprovação de embriões humanos com “três pais”

Herton Escobar

26 Fevereiro 2014 | 22h08

FOTO: Macacos geneticamente modificados, gerados na Oregon Health & Science University. Crédito: OHSU

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

*Atualizado às 15h de 27/02/2014

Autoridades médicas nos EUA e na Grã-Bretanha estão avaliando a segurança e a ética de uma técnica de reprodução assistida que permitiria criar embriões humanos com DNA de três “pais” (um homem e duas mulheres). O intuito seria evitar a transmissão hereditária de doenças ligadas a mutações no DNA mitocondrial, que é passado apenas de mãe para filho.

A técnica já foi testada experimentalmente em macacos, aparentemente sem efeitos negativos, e as autoridades começam a debater, agora, se é o caso de autorizá-la também para uso na reprodução humana. A Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos realizou nesta semana um debate de dois dias com especialistas sobre o assunto. Já o departamento de Saúde do governo britânico abriu uma consulta pública para discutir como a técnica, denominada “doação de mitocôndrias”, deveria ser usada, caso venha a ser autorizada. Uma proposta inicial de regras foi publicada na internet e a sociedade tem até o fim de maio para enviar comentários, segundo uma reportagem da Associated Press.

Apesar dos resultados aparentemente seguros em macacos, há uma série de questionamentos éticos envolvidos no debate. A técnica consiste em retirar o núcleo de um óvulo da mãe portadora de mutações no DNA mitocondrial e transferi-lo para o óvulo de uma doadora com mitocôndrias “sadias”, cujo núcleo foi previamente removido. Assim, o resultado da fertilização in vitro seria um embrião com material genético de três pessoas: o DNA do núcleo do espermatozoide do pai, o DNA do núcleo do óvulo da mãe, e o DNA das mitocôndrias do óvulo da doadora.

Um resultado que pode ser classificado, tecnicamente, como um “embrião humano geneticamente modificado” — ainda que a contribuição do DNA mitocondrial para o genoma completo da criança seja muito pequena. O DNA das mitocôndrias tem apenas 16.500 pares de nucleotídeos (combinações de bases A, T, C e G) e carrega apenas 37 genes, comparado aos cerca de 3 bilhões de pares de bases do DNA armazenado no núcleo das células, que carrega a esmagadora maioria dos cerca de 20 mil genes que compõem o genoma humano. (Mais informações neste site do NIH: http://ghr.nlm.nih.gov/mitochondrial-dna)

O problema é que nesses míseros 37 genes também podem ocorrer algumas mutações problemáticas, relacionadas, por exemplo, à surdez e à diabetes. E é nesses casos que a técnica de transferência nuclear poderia ser aplicada, para evitar a transmissão dessas mutações de mãe para filho (no caso do espermatozoide não há essa preocupação, pois apenas as mitocôndrias do óvulo são herdadas pelo embrião e incorporadas ao genoma da criança).

Macacos. O principal defensor da técnica é o pesquisador Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon, que inventou o procedimento e já produziu, desde 2009, cinco macacos geneticamente modificados — e aparentemente saudáveis — com ele. Mitalipov defende que a técnica seja usada para permitir que mulheres portadoras de mutações conhecidas no DNA mitocondrial tenham filhos saudáveis, por meio da fertilização in vitro.

As objeções éticas à manipulação genética de seres humanos, porém, são muitas. Ainda que o objetivo inicial seja evitar a transmissão de doenças, muitos temem que a liberação da técnica abra portas para a produção de “bebês customizados”, com características genéticas selecionadas em laboratório.

A opinião que se sobressaiu no debate na FDA foi a de que ainda é cedo demais para testar a técnica na reprodução humana, segundo um relato publicado no site de notícias da revista Science. Mitalipov disse que ainda não decidiu se vai entrar com um pedido oficial de autorização para ensaios clínicos. A FDA não tem prazo para emitir um posicionamento sobre o assunto.

Mitalipov é o pesquisador que recentemente, também, se tornou o primeiro no mundo a produzir embriões humanos clonados, para obtenção de células-tronco embrionárias. Para saber mais sobre esse estudo, clique aqui: Cafeína faz clonagem de embriões humanos funcionar

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INFOGRÁFICO: ArteEstado

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