“Fui punido pelo meu sucesso”, diz Jorge Kalil

“Fui punido pelo meu sucesso”, diz Jorge Kalil

Afastado da diretoria do Instituto Butantan, pesquisador diz que acusações feitas contra ele são "ridículas e pueris", supostamente motivadas por inveja e cobiça pelo comando da instituição, que neste ano deve faturar cerca de R$ 1,6 bilhão com a venda de soros e vacinas

Herton Escobar

22 Fevereiro 2017 | 06h45

O cientista Jorge Kalil, afastado ontem da direção do Instituto Butantan (IB), disse que as acusações feitas contra ele são “ridículas” e motivadas por inveja do economista André Franco Montoro Filho, ex-diretor da Fundação Butantan (FB), que queria ter controle total sobre a instituição, mas acabou sendo forçado a se demitir.

“As coisas que eles estão levantando são absolutamente ridículas e pueris”, disse Kalil ao Estado, em entrevista por telefone de Paris, onde participava até ontem de um encontro científico sobre vacinas e epidemias emergentes. “Nos acusam de bobagens; todas elas absolutamente defensáveis, se deixarem a gente se defender.”


Kalil deve chegar hoje de manhã a São Paulo. Ele disse antes de embarcar ontem à tarde que não havia sido notificado ainda do seu afastamento, mas a decisão foi confirmada pelo governador Geraldo Alckmin.

Jorge Kalil. Foto: Sergio Castro/Estadão (2009)

Jorge Kalil. Foto: Sergio Castro/Estadão (2009)

Um dos cientistas mais respeitados do país, tanto na função de pesquisador quanto de administrador, Kalil estava como diretor do IB desde 2011. Ele foi acusado por Montoro de praticar uma série de irregularidades, incluindo a assinatura de contratos suspeitos e o uso de cartão corporativo para supostos gastos pessoais em viagens.

Montoro, que já era conselheiro da instituição, assumiu a presidência da Fundação Butantan (FB) em agosto de 2015 — no lugar do próprio Kalil, que até então acumulava os dois cargos, de diretor do instituto e presidente da fundação. Entidade de direito privado sem fins lucrativos, a FB foi criada em 1989 para cuidar da gestão financeira do IB, reaplicando no instituto os recursos obtidos com a produção de soros e vacinas.

O faturamento previsto do Butantan para 2017, segundo Kalil, é de aproximadamente R$ 1,6 bilhão, comparado a cerca de R$ 300 milhões quando ele assumiu a direção do instituto seis anos atrás — principalmente por conta do aumento na produção da vacina da gripe. Um crescimento que é motivo de orgulho interno, segundo ele, mas também de inveja e cobiça externa. “Esse dinheiro abre os olhos das pessoas que não trabalham, né?”

Não é a primeira vez que tentam me tirar da direção do instituto

“Tenho certeza de que fui punido pelo meu sucesso”, disse Kalil. “O Butantan está indo de vento em popa, sendo solicitado no mundo todo, participando de tudo; e isso acaba incomodando as pessoas. Não é a primeira vez que tentam me tirar da direção do instituto, e eu atribuo isso a uma grande inveja, porque são poucos os administradores públicos que conseguem fazer com que a instituição aumente em seis vezes seu faturamento e tenha essa visibilidade.”

Kalil disse que quase todas as fábricas do instituto estavam paradas quando eu chegou, por conta de uma série de problemas estruturais, sanitários e burocráticos, e que ele vinha reformando as instalações e retomando a produção progressivamente, de acordo com a disponibilidade de recursos.

Ele disse que ficou sabendo das denúncias de Montoro pelos jornais, e que se sentiu “indignado”. Segundo ele, Montoro vinha tentando assumir o controle do instituto, interferindo em decisões de caráter técnico ou científico, usurpando atribuições que eram do IB e tomando decisões sem a aprovação do Conselho Curador da fundação. “Os membros do conselho pediram de forma unânime que ele se demitisse.”

Segundo Kalil, as acusações de Montoro são baseadas no relatório de uma auditoria à qual o próprio Montoro teve acesso logo que assumiu a presidência da FB, em 2015 — além de já ser membro do Conselho Curador da fundação desde 2013. “Se ele diz que tinha irregularidades dois anos atrás, então ele está se acusando”, rebateu Kalil. “E as acusações são ridículas.”

Tudo não passa de argumentos e factoides criados

Sobre a acusação de que ele teria usado o cartão corporativo em viagens de férias, Kalil disse que as contas se referem exclusivamente a gastos relacionados à participação em eventos científicos, para os quais ele é convidado regularmente — inclusive em períodos de férias. “Nem sempre quando eu tiro férias eu saio de férias, porque tenho muito trabalho”, disse. “Tenho uma agenda pesada, tanto no Brasil quanto no exterior.”

Sobre o suposto contrato com uma empresa fantasma, relatado em reportagem do programa Bom Dia Brasil, Kalil disse que ele se refere a uma empresa que teria sido subcontratada por outra, para prestar os serviços de “coffee break” em eventos do instituto. “Não sei o endereço da empresa que servia o cafezinho”, disse. “Você acha que isso é grave diante de tudo o que eu te contei que a gente fez no Instituto Butantan? O que eu sei é que tinha o coffee break, que ninguém faturou nada em cima disso e não teve desvio de coisa nenhuma. Tudo não passa de argumentos e factoides criados.”

 

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