Fundação e Instituto Florestal serão transferidos do Horto

Administração dos órgãos responsáveis pelas áreas protegidas do Estado de São Paulo serão transferidos para a sede da Secretaria do Meio Ambiente, em Pinheiros. Estrutura de vigilância das unidades de conservação será reformulada.

Herton Escobar

28 Setembro 2016 | 07h00

As administrações da Fundação Florestal (FF) e do Instituto Florestal (IF)— responsáveis pela gestão das áreas protegidas do Estado de São Paulo — serão transferidas das suas instalações históricas no Horto Florestal, na zona norte da cidade, para a sede da Secretaria de Meio Ambiente, em Pinheiros, na zona oeste.

A informação, divulgada ontem à tarde pela Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), foi confirmada pela reportagem com o novo secretário da pasta ambiental, Ricardo Salles. O motivo, segundo ele, é “aumentar a eficiência administrativa” da secretaria como um todo.

Segundo Salles, não há razão para as funções administrativas da Fundação e do Instituto ficarem no Horto, isoladas do resto da administração ambiental do Estado — obrigando pessoas a enviar documentos e se deslocar fisicamente de um lugar para outro para fazer reuniões. “Não tem nenhuma lógica”, diz o secretário. Todos os funcionários da FF (entre 250 e 300, segundo Salles) deverão ser transferidos para a sede da secretaria em Pinheiros. Um andar inteiro está sendo reformado para recebê-los. No caso do IF, segundo Salles, está sendo feito um levantamento para determinar quais funcionários e atividades podem ser transferidas para a secretaria e quais precisam permanecer no Horto, pela necessidade de acesso a laboratórios e outras instalações técnicas ou científicas presentes ali. “As atividades que têm ligação física com o Horto continuarão lá, com mais espaço para trabalhar”, disse Salles.

Segundo o secretário, o prédio histórico que atualmente abriga as duas instituições não será vendido nem ocupado por outras atividades que não sejam vinculadas a elas.


Coincidência ou não, ao mesmo tempo em que os funcionários ficaram sabendo da mudança, chegou ao IF um ofício do Comando da Polícia Ambiental de São Paulo pedindo para conhecer as dependências das áreas técnicas e administrativas do instituto.

PREOCUPAÇÃO

Funcionários da FF e do IF ouvidos pela reportagem, porém, estão preocupados. Ele temem que a mudança seja mais um passo na direção de sucatear tecnicamente e aparelhar politicamente as instituições, em detrimento da conservação ambiental no Estado. Temendo represálias por parte da secretaria, todos pediram que seus nomes fossem mantidos em sigilo. A pasta não produziu nenhum ofício ou anúncio oficial da decisão.

“É tudo uma grande incógnita”, disse o presidente da APqC, Joaquim Adelino de Azevedo Filho, que é pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios. “É assim que eles agem.”

Funcionários contam ter sido informados por seus respectivos diretores que teriam de se apresentar na sede da Secretaria de Meio Ambiente até novembro, mas não houve um comunicado oficial sobre como isso seria feito. Um pesquisador temia o que poderia ocorrer com seu laboratório. “Não vejo muito espaço para nós lá”, disse. “São prédios próprios, que não gastam com aluguel, não faz muito sentido essa mudança”, afirmou outro funcionário.

Há uma preocupação também com funcionários de mais baixa renda do IF. Muitos moram na região do Horto, alguns até em mesmo em favelas, e terão de gastar mais para se deslocar até Pinheiros.

VIGILÂNCIA

Funcionários também acusam a secretaria estadual de planejar a demissão de vigilantes e o cancelamento de obras e projetos essenciais para a proteção das unidades de conservação do Estado.

Questionado pela reportagem, Salles disse que haverá uma reorganização da estrutura de vigilância das unidades. O objetivo, segundo ele, é substituir os vários contratos individuais que existem com diferentes empresas de vigilância por um único contrato, válido para todo o sistema ambiental paulista — o que permitiria negociar preços melhores. Os contratos que estão para vencer não serão renovados ou serão estendidos apenas provisoriamente, até que seja concluída uma licitação para contratação do novo serviço unificado.

Perguntado se o número de vigilantes poderá ser reduzido nesse processo, Salles disse que haverá um maior uso de tecnologia (por exemplo, com câmeras de segurança) e que “não haverá perda de qualidade da vigilância”. “É um movimento de aumento da qualidade com redução de custo”, argumenta.

Funcionários dizem que o número total de vigilantes do sistema já caiu de 229 para 161 desde o ano passado, e há rumores de que esse número poderá cair pela metade no ano que vem, colocando em risco a segurança das unidades de conservação — que já é bastante precária.

POLÊMICA

Salles assumiu a Secretaria do Meio Ambiente há pouco mais de dois meses, em 18 de julho, sem ter ligação prévia com a área ambiental. Sua nomeação foi noticiada como uma ação política do governador Geraldo Alckmin, em retorno pelo apoio do Partido Progressista (PP) à candidatura de João Doria à prefeitura de São Paulo, pelo PSDB.

Salles, que é ligado ao PP e já foi secretário pessoal de Alckmin, nega que sua indicação tenha sido política. O governo do Estado, também.

— Colaborou Giovana Girardi

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