GALO DECLARA AMOR A UMA ABELHA

GALO DECLARA AMOR A UMA ABELHA

Herton Escobar

11 Setembro 2012 | 10h08

Eulaema quadragintanovem

Não consigo entender porque alguém batizaria uma espécie em homenagem ao Ronaldinho Gaúcho (em vez do Ronaldo Fenômeno, por exemplo), mas enfim … a irracionalidade do futebol é algo que não se pode explicar com racionalidade. Foi exatamente isso que fez André Nemésio, um biólogo da Universidade Federal de Uberlândia, torcedor fanático do Atlético Mineiro (que, vale lembrar, perdeu recentemente de 1×0 para o Coringão). Ele acaba de descrever uma nova espécie de abelha que vive nos brejos de altitude da Mata Atlântica no Ceará (no pouquinho que resta desse bioma por lá) e a batizou de Eulaema quadragintanovem, em homenagem ao número 49, que é o número da camisa do Ronaldinho no Atlético Mineiro.

Vejam o que ele escreveu no trabalho de descrição da espécie, publicado ontem na revista Zootaxa:

Etymology. The specific epithet honors the Brazilian soccer player Ronaldo de Assis Moreira, famous worldwide as ‘Ronaldinho’ and in Brazil as ‘Ronaldinho Gaúcho’. ‘Quadraginta novem’ means forty-nine, the number of Ronaldinho’s t-shirt at Clube Atlético Mineiro (CAM), his current team in Brazil. Ronaldinho chose the number 49 as homage to his mother, born in 1949.

E o que ele me escreveu por email ontem, explicando sua descoberta e sua opção de nome  (as perguntas e respostas são dele mesmo, que explica muito melhor do que eu):

1 – Quando surgiu a ideia da homenagem?

No mesmo dia em que foi anunciada a contratação do Ronaldinho pelo Atlético. Estávamos com o artigo pronto para submeter para uma revista científica na semana em que o Ronaldinho se desligou do Flamengo. Quando saiu essa notícia (de que o Ronaldinho havia saído do Flamengo), eu apostei com meus colegas da UFMG que o Alexandre Kalil (presidente do Atlético) iria contratá-lo. O Kalil estava doido para fazer uma contratação de impacto, havia tentado o Diego Forlan e, então, quando o Ronaldinho saiu do Flamengo eu pensei: “isso aí tá a cara do Kalil! Aposto que ele vai buscá-lo!”. Dito e feito! Ou seja, nós submetemos o artigo para a revista com a homenagem ao Ronaldinho antes mesmo dele estrear pelo Atlético. Foi uma aposta tão ousada quanto a do presidente do Atlético. Se ele fosse um fiasco, a homenagem ficaria completamente esvaziada.

2 – Como surgiu a ideia do nome?

Pois é, o nome foi a parte mais complicado. Queríamos homenagear o Ronaldinho, mas tínhamos dois problemas. Primeiro, a latinização do nome do Ronaldinho ficaria ronaldinhoi ou ronaldinhi, e achávamos ambas as formas muito feias! Segundo, e mais importante, não queríamos apenas homenagear o Ronaldinho. Queríamos homenagear o “Ronaldinho do Galo”, a passagem dele pelo Atlético! Então tinha que ser um nome que ligasse o Ronaldinho ao Atlético. E aí a camisa dele caiu do céu. Veio o Kalil com aquela história de que a camisa 10 já estava ocupada e que o número que tinha sobrado pra ele era o 49… (risos). Aí me deu um “estalo”. Se o cara é o R49, então a abelha será a Eulaema 49. Aí foi fácil: quarenta e nove em latim é quadraginta novem. Juntamos tudo numa só palavra, porque o nome específico tem uma única palavra, e pronto! Eulaema quadragintanovem! Homenageia o Ronaldinho NO GALO, porque foi o único clube onde ele usou a camisa 49!
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3 – Por que homenagear um jogador e um time de futebol em uma espécie animal?
Usar um time de futebol de grande torcida e um personagem de fama mundial é uma forma de atrair a atenção do grande público e da mídia. E não atrai a atenção apenas dos torcedores do time. Quando, eu 2009, eu descrevi a Eulaema atleticana, em homenagem aos 100 anos do Galo, muitos cruzeirenses me pararam na rua para dizer: “puxa, eu sou cruzeirense, mas foi super bacana sua homenagem. Pena que não foi para o Cruzeiro…”. Ou seja, é uma forma de atrair a atenção para assuntos que o grande público, de forma geral, desconhece, como a grande diversidade animal e o quanto ainda não conhecemos, a importância de se financiar a ciência básica para que possamos conhecer toda essa riqueza e, especialmente, a situação delicada que muitas populações de animais (e plantas) se encontram devido ao desaparecimento dos ambientes nos quais elas vivem. A Eulaema 49, ou E49, como brincamos entre nós, é uma espécie raríssima, só existem dois exemplares conhecidos, e corre o risco de desaparecer sem que sequer conheçamos aspectos básicos de sua biologia, quais plantas dependem dela para sua polinização, qual o papel que ela e as plantas polinizadas por ela desempenham no ecossistema onde vivem… Acho que é uma forma legítima de levarmos essa mensagem a pessoas que, de outra forma, nunca prestariam atenção nisso. É bacana podermos abrir um canal de diálogo sobre preservação ambiental com as pessoas em um programa de esportes na TV, como ocorreu em 2009. É nosso papel, como cientistas, divulgar os resultados das nossas pesquisas e envolver o público nisso. Mais ainda, envolver essas personalidades na questão ambiental pode ser, também, um “gol de placa”. O Ronaldinho tem seus projetos de apoio à crianças carentes. Imagine se uma personalidade da envergadura dele abraça a causa conservacionista, ambiental? Seria ótimo para a imagem dele e melhor ainda para o próprio meio ambiente, com uma pessoa a mais atuando para alertar as pessoas sobre a necessidade de se preservar a natureza.
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4 – Fale mais sobre a nova abelha
Eulaema quadragintanovem só foi encontrada em duas áreas no estado do Ceará. São áreas com vegetação conhecida como “brejos de altitude”, ou seja, remanescentes de Mata Atlântica em áreas mais altas (normalmente acima de 700 m de altitude), topos de montanha, onde o clima é mais úmido e frio. Uma das áreas é o Parque Nacional de Ubajara e, a outra, a Serra do Baturité. As abelhas euglossinas, grupo ao qual a E49 pertence, são abelhas típicas de ambientes florestais e são conhecidas pelo fato dos machos visitarem flores de orquídea (e de outras plantas também) para coletar fragrâncias florais que, posteriormente, são utilizadas para atrair as fêmeas. No processo de coleta dessas fragrâncias, as abelhas promovem a polinização (reprodução) das espécies de orquídeas e de outras plantas!
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5 – Em que revista científica a nova abelha foi descrita?
Zootaxa, da Nova Zelândia, a maior revista de zoologia do mundo (publica cerca de 15 a 20% de todos os trabalhos de taxonomia zoológica do planeta). Data de publicação: 11 de Setembro de 2012.

Enfim, eu sou corinthiano fanático e, se tivesse oportunidade de batizar uma espécie, confesso que a tentação seria grande de fazer algo semelhante (Eulaema mantoalvinegrai fiel, talvez?, com espécie e subespécie), então não posso recriminar … Um pouco de cultura pop e devoção futebolística não farão mal ao movimento conservacionista.

E você, se pudesse dar nome a essa abelha, que nome daria?

Abraços a todos.