GIGANTES DO MAR BRASILEIRO

GIGANTES DO MAR BRASILEIRO

Herton Escobar

05 Agosto 2012 | 13h58

Abaixo, os primeiros parágrafos da minha reportagem especial publicada na edição de hoje do Estadão, sobre as raias-mantas-gigantes da Laje de Santos. E, mais abaixo, um texto complementar, não publicado no jornal impresso, baseado numa entrevista que fiz com a bióloga americana Andrea Marshall, a maior especialista do mundo em raias-mantas.

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NO RASTRO DAS RAIAS GIGANTES DA LAJE DE SANTOS

Por Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Todos os anos, no inverno do Hemisfério Sul, raias-mantas-gigantes desfilam pelo Parque Estadual Marinho da Laje de Santos, no litoral sul de São Paulo. Enormes, belas, inofensivas e silenciosas. Elas surgem do nada e desaparecem no nada, sem aviso, batendo suas “asas” cartilaginosas (na verdade, nadadeiras peitorais superdesenvolvidas) graciosamente pelas águas vezes azuis, vezes verdes, da unidade. Poucos são os mergulhadores que têm a sorte de ver uma passando. Ninguém sabe de onde elas vêm ou para onde vão. Nem o que vêm fazer aqui. Mas isso está começando a mudar.

Pesquisadores do Instituto Laje Viva (ILV), organização não governamental que trabalha em parceria com a Fundação Florestal na conservação do parque, estão “equipando” mantas com transmissores de dados via satélite, que, se tudo fluir bem, poderão dar pistas importantes sobre o comportamento e as rotas migratórias desses animais.

Os aparelhos, com o formato de um pequeno microfone, são presos às costas das mantas por mergulhadores, com o auxílio de uma lança (sem machucar o animal). Assim como os peixes rêmoras que viajam agarrados ao seu corpo, o transmissor – ou “tag”, como é chamado em inglês – vai com a manta onde quer que ela for, registrando minuto a minuto a temperatura e a profundidade da água por onde ela passa.

Após um período pré-programado, que pode chegar a 180 dias (dependendo da bateria), o transmissor se solta automaticamente, flutua até a superfície e transmite os dados via satélite para os pesquisadores. Duas mantas foram marcadas em 2010 e mais três, agora, em 2012.

O Estado mergulhou com os pesquisadores e acompanhou a colocação do quinto transmissor (Tag 5), no dia 14 de julho. Era um dia ensolarado e de mar calmo, sem vento. Fizemos um primeiro mergulho de quase 40 minutos, mas nada de mantas. “É sorte mesmo, não tem como prever. Você está na água e, de repente, elas aparecem”, relata Guilherme Kodja, diretor do projeto Mantas do Brasil, patrocinado pela Petrobrás e executado pelo ILV.  …

(Para ler a matéria na íntegra, clique aqui)

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Foto: Uma raia Manta birostris em Moçambique, com um “cardume” de rêmoras em seu ventre.

UMA ESPÉCIE TÃO GRANDE QUE VALE POR DUAS

Por Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

As raias-mantas já são conhecidas da ciência há mais de 200 anos. Até 2009, porém, acreditava-se que elas pertenciam todas a uma única espécie. Foi quando Andrea Marshall, uma jovem bióloga americana, mostrou que, na verdade, há duas espécies bastante distintas: uma oceânica, de hábitos migratórios, chamada Manta birostris; e uma recifal, residente de ecossistemas costeiros, chamada Manta alfredi. A primeira é a mais gigante das duas, podendo passar dos 7 metros de envergadura. A segunda é um pouco menor, com até 5 metros de envergadura “apenas”. Ambas são consideradas ameaçadas de extinção, apesar de não haver números precisos sobre suas populações.

A reclassificação criou um vácuo imediato de informações sobre a espécie oceânica. Do pouco que se sabia sobre as mantas até então, praticamente tudo era referente à Manta alfredi, que, por ser uma espécie residente de águas mais rasas, podia ser estudada com mais facilidade. Já a Manta birostris, ou raia-manta-gigante, é extremamente difícil de se pesquisar, por conta de seus hábitos migratórios. “Foi muito emocionante descrever uma nova espécie. A verdade, porém, é que sabemos muito pouco sobre ela”, disse Andrea ao Estado, via internet, da sua base de pesquisa em Moçambique, na costa leste da África, onde as duas espécies ocorrem simultaneamente.

Quais são suas rotas migratórias e como estão distribuídas suas populações ao redor do mundo? Como elas se comportam em alto-mar e em águas profundas, longe dos olhares humanos? Quais são seus hábitos reprodutivos? São algumas das perguntas ainda sem resposta consideradas essenciais para a compreensão e a conservação da espécie. “Supomos que a biologia da Manta birostris é a mesma da Manta alfredi; mas é apenas uma suposição”, diz Andrea. E na ciência não basta especular; é preciso estudar e comprovar.

Vários projetos de rastreamento via satélite realizados nos últimos três anos – incluindo o do Instituto Laje Viva, no Brasil – revelam que a manta-oceânica é capaz de percorrer longas distâncias, na casa dos milhares de quilômetros, e fazer mergulhos extremamente profundos, bem abaixo dos mil metros de profundidade. A distância mais longa registrada via satélite foi de 1.500 quilômetros, mas isso está limitado pelo tempo de funcionamento dos aparelhos de monitoramento. Entre um ponto de contato e outro, ela pode ter percorrido muito mais do que isso, submersa (as mantas são peixes e portanto não precisam ir à superfície para respirar, como fazem as baleias, golfinhos e outros mamíferos marinhos). Ainda não se sabe se as mantas ficam restritas a alguma região, se retornam periodicamente a algum determinado local, se ficam restritas a alguma distância da costa ou se são capazes de cruzar oceanos, por exemplo.

Uma das poucas certezas é que as estratégias de conservação precisam ser diferenciadas para cada uma das espécies. Ambas são ameaçadas pela pesca predatória – tanto direcionada, para alimentação, quanto acidental, quando as mantas ficam presas em redes usadas para pesca de outros peixes. Mas o tipo de pescaria e o impacto disso sobre as populações são distintos, tanto por espécie quanto por região.

Em Moçambique, onde Andrea pesquisa as duas espécies desde 2003, o número de mantas-recifais residentes caiu 86% nos últimos dez anos. Como não houve nenhuma mudança significativa nas condições ambientais do ecossistema local nesse período, conclui-se que o “sumiço” das mantas deve-se quase que exclusivamente à pressão da pesca ou outros fatores humanos. Por se tratar de uma espécie não migratória e de reprodução lenta, os efeitos da pressão pesqueira aparecem mais rapidamente sobre ela, já que não há novos indivíduos sendo produzidos localmente nem chegando de outras áreas para substituir os que são mortos.

Já no caso da manta-oceânica, o monitoramento populacional é mais complicado, por se tratar de uma espécie migratória. Andrea e sua equipe não perceberam uma queda no número de Manta birostris em Moçambique, ainda, mas isso não significa que a espécie não esteja ameaçada. Globalmente, juntando várias evidências, a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) estima um declínio de 30% na população da espécie nos últimos 75 anos. Ela é classificada como “vulnerável” na Lista Vermelha da entidade, assim como a Manta alfredi.

O problema é que as mantas-oceânicas não param quietas. Assim como na Laje de Santos, as que passam por Moçambique num determinado ano são diferentes das que passaram por lá no ano anterior, e é quase impossível saber o que acontece com elas depois que seguem para outras águas. Uma ou outra, apenas, os cientistas sabem que retorna periodicamente, graças a um processo de identificação fotográfica baseado em pintas presentes na “barriga” (ventre) das mantas, igual se faz com base nos padrões de pigmentação dos rabos de baleias.

“Cada raia tem um padrão de pintas na sua parte ventral que é específico de cada animal. É como se fosse uma impressão digital das mantas”, explica o biólogo Eric Comin, do Instituto Laje Viva. A organização tem um banco de dados com identidades fotográficas de quase 80 mantas que passaram pela Laje de Santos desde 2003. Destas, apenas cinco já foram reavistadas no local – uma com intervalo de oito anos.

Em Moçambique, a história é a mesma. “Alguns indivíduos retornam em intervalos de dois a três anos”, conta Andrea. Ela acredita que as mantas-oceânicas têm territórios grandes, porém restritos a determinados oceanos. Mas falta muita pesquisa ainda para traçar um limite com segurança.

Outro mistério que Andrea não consegue solucionar é como animais tão grandes e belos como as raias-mantas passaram tanto tempo quase que ignoradas pela ciência. “Não é possível que eu sou a única que acha esses animais incríveis”, diz a pesquisadora, autora da primeira tese de doutorado no mundo sobre esses peixes gigantes, publicada em 2008. Não é não, Andrea. Não é não.