IMPAGÁVEIS OU DISPENSÁVEIS?

IMPAGÁVEIS OU DISPENSÁVEIS?

Herton Escobar

11 Setembro 2012 | 20h39

Actinote zikani, uma das borboletas listadas. (FOTO: André Freitas / Laboratório de Borboletas da Unicamp).

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A União Mundial para Conservação da Natureza (IUCN, em inglês) divulgou hoje no Congresso Mundial sobre Conservação, na Coreia do Sul, um livro com informações sobre 100 das espécies mais ameaçadas do planeta. Entre elas, 5 brasileiras: o macaco muriqui, o pássaro soldadinho-do-araripe, o preá Cavia intermedia (um roedor que só existe numa ilha de Santa Catarina chamada Moleques do Sul), uma borboleta do Cerrado e um da Mata Atlântica. (O livro pode ser lido online neste link: Priceless or Worthless? , e para encontrar as espécies brasileiras é só fazer uma busca por “Brazil”)

Se essas são de fato as 100 espécies mais ameaçadas do planeta é algo a ser discutido talvez infinitamente. Claro que várias outras espécies brasileiras e de outros países poderiam muito bem estar nessa lista. E o fato de não estarem não significa que sejam menos importantes do que as que estão … O que me leva a uma discussão “filosófica” que acho extremamente interessante (muito mais do que um debate técnico sobre quem deveria estar na lista ou não).


No press release divulgado pela IUCN, o professor Jonathan Baillie, diretor de conservação da Sociedade de Zoologia de Londres, apresenta um argumento desafiador e fascinante:

“A comunidade de doadores e o movimento conservacionista estão se apoiando cada vez mais numa argumentação do tipo “O que a natureza pode fazer por nós?”, na qual espécies e hábitats selvagens são valorizados e priorizados de acordo com os serviços que prestam ao ser humano. Isso tem tornado cada vez mais difícil proteger as espécies mais ameaçadas do planeta. Temos uma decisão ética e moral muito importante a ser tomada: Essas espécies têm o direito de sobreviver, ou nós é que temos o direito de levá-las à extinção?”

Falar em proteger baleias, tigres e ursos-panda é muito fácil. São animais obviamente belos, carismáticos e “importantes”. Mas e quanto às borboletas, o soldadinho-do-araripe ou o preá que só existe em uma ilha de Santa Catarina? E quanto às jararacas endêmicas das ilhas do litoral paulista? E tantas outras espécies que não são belas e carismáticas, não prestam serviço nenhum ao ser humano e, aparentemente, não “servem para nada”? Que diferença faz se elas existem ou não? Por que se dar ao trabalho de preservá-las?

Uma vez um amigo me perguntou: Qual o problema se as girafas forem extintas na África? E eu com isso? … Não é uma pergunta tão simples de ser respondida tecnicamente. Eu poderia usar argumentos ecológicos, relacionados a teias alimentares, conectividade entre espécies e coisas desse tipo … mas acho que não precisa. Se a questão for o desmatamento da Amazônia, poderíamos falar sobre o impacto na produção de chuvas, na estabilidade climática regional, nas emissões de carbono e coisas desse tipo … Mas acho que não precisa de nada disso. Ou não deveria precisar, pelo menos. Como bem disse Baillie, não podemos nos limitar a valorizar as espécies ou os ecossistemas simplesmente pelos bens ou serviços que elas nos oferecem (apesar de este, infelizmente, ser o argumento mais eficiente na hora de lutar por recursos e por decisões políticas de conservação).

Eu digo que toda espécie tem o direito de existir e que nós não temos o direito de extinguir nenhuma; seja bela ou seja feia, seja útil ou seja inútil. Elas são habitantes deste planeta também! Evoluíram, conquistaram seu lugar no mundo, e têm o direito de continuar nele. São obras de arte da natureza! Imagine se alguém entrasse num museu e queimasse centenas de obras de arte … pinturas, esculturas, tapeçarias … são coisas que não têm utilidade prática nenhuma, mas que valorizamos imensamente pelo seu valor artístico, histórico, cultural, etc. Porque não aplicamos essa mesma lógica à natureza?? Por que pagamos milhões de dólares por um quadro de Picasso, mas não para salvar uma espécie de borboleta??

O nome do livro da IUCN resume isso na seguinte pergunta: Impagáveis ou Dispensáveis? (Priceless or Worthless?) Como diria um presidente americano: Não pergunte o que a biodiversidade pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pela biodiversidade!

Abraços a todos.