INVASÃO DE COBRAS

INVASÃO DE COBRAS

Herton Escobar

30 Janeiro 2012 | 21h11

FOTO: Courtsey of U.S. Geological Survey/photo by Lori Oberhofer, National Park Service

.

Imagine só o seguinte: Você compra uma cobra para criar dentro de casa, num aquário. Aí a cobra começa a crescer, fica grande demais, ou sua mãe fica brava demais e manda você se livrar do bicho … e aí, você faz o que com ela? Solta na natureza? … Foi o que fizeram vários proprietários de cobras píton na Flórida ao longo dos últimos anos. Resultado: as cobras começaram a se reproduzir na natureza e viraram uma espécie exótica invasora.

No famoso Parque Nacional dos Everglades, no sul da Flórida, as pítons da Birmânia (Python molurus bivittatus) viraram uma praga com consequências graves para o meio ambiente. Um estudo publicado na edição desta semana da revista PNAS (o períodico científico da Academia Nacional de Ciências dos EUA) confirma o que muita gente já suspeitava. Os números de cobras invasoras e de mamíferos nativos do parque estão variando de maneira inversamente proporcional. Em outras palavras: quanto mais cobras invasoras, menos mamíferos nativos. Ou, dito de outra forma, ainda mais clara e objetiva: as cobras estão comendo os mamíferos aos montes. Sem falar em outros bichos não quantificados pela pesquisa, como répteis e aves. Até alligators elas comem! (veja foto abaixo)

O estudo documenta um declínio significativo nas populações de guaxinims (raccoons), gambás, coelhos e linces nativos do parque nos últimos dez anos, desde que as pítons se estabeleceram na região. E o que fazer agora? As pítons são cobras nativas da Ásia, introduzidas na América como bichos de estimação. E tem mais gente criando cobra dentro de casa do que você imagina: nos últimos 30 anos, cerca de 300 mil pítons foram importadas da Ásia para os EUA, segundo informações do banco de dados sobre espécies invasoras do United States Geological Survey (USGS). A espécie pode passar dos 5 metros de comprimento e mata suas presas por constrição. Não tem predadores naturais na Flórida, portanto cabe ao homem assumir esse papel: mais de 1.800 cobras já foram removidas do Everglades nos últimos 11 anos, segundo dados oficiais do parque. Imagine só!

Nada de errado em criar cobra dentro de casa. Desde que ela fique dentro de casa!

Abraços a todos.

COMPLEMENTO: Muitos dos comentários postados até agora discutem a questão da caça como solução para o problema da invasão. Muita gente se opõe à caça com o argumento de que a espécie invasora não tem culpa de nada e, portanto, não pode ser penalizada por isso. Afinal, foi o homem quem a tirou de seu hábitat original e a introduziu num ecossistema diferente, do qual ela não fazia parte. As pítons não pediram para ser levadas para a Flórida. Elas simplesmente foram largadas lá e agora estão fazendo o que precisam fazer para sobreviver. A culpa, portanto, é do homem e não da cobra. Fato!

Mas é fato também que alguma coisa precisa ser feita. Pois quem está pagando o preço do erro humano não são os próprios seres humanos, mas as espécies nativas do parque que estão sendo devoradas pelas cobras. Elas são as verdadeiras vítimas nessa história e cabe ao homem a obrigação de protegê-las das consequências de seu erro. A única maneira de fazer isso é removendo as cobras do ecossistema. Nesse sentido, acho que a caça pode ser uma solução aceitável, desde que seja feita de forma adequada, devidamente regulamentada e supervisionada. (Veja também o caso do peixe-leão, uma espécie invasora do Caribe, sobre o qual já escrevi algumas vezes aqui no blog. Esse assunto já foi muito discutido e a caça, neste caso, parece ser mesmo a única solução.)

O ideal seria remover as cobras sem matá-las e transferí-las para outro lugar. E, depois disso, impedir que novas introduções aconteçam. Mas imagino que não seja fácil achar espaço para 1.800 cobras de até 5 metros cada uma. O fato é que, se as cobras exóticas não desaparecerem, quem vai desaperecer são os mamíferos nativos. Um deles terá de pagar o preço do erro humano, infelizmente.

.

FOTO: Píton tentou engolir um jacaré grande demais ... morreram os dois. (Photo by Michael Barron)