Investigação revela mercado ilegal de autorias e trabalhos científicos na China

Investigação revela mercado ilegal de autorias e trabalhos científicos na China

Herton Escobar

28 Novembro 2013 | 18h20

FOTO: página da revista Science na internet, com chamada para a reportagem “Authorship for sale”.

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Precisa publicar um trabalho numa revista científica de respeito para subir na carreira, mas não tem o tempo nem a competência necessários para isso? Não tem problema … Na China, com um pouco de dinheiro, pode-se comprar uma “vaga” de autor no trabalho de outra pessoa, ou até comprar um trabalho já pronto para colocar seu nome nele – com a garantia de que ele será publicado numa revista indexada pela Elsevier ou pela Thomson Reuters, as principais empresas de referência no ramo das publicações científicas.

É o que revela uma investigação de cinco meses, conduzida e reportada hoje pela revista Science. Repórteres chineses, posando de cientistas ou alunos de pós-graduação, investigaram as atividades de 27 empresas chinesas suspeitas de comercializar autorias e artigos científicos para publicação em revistas indexadas da base SCI (Science Citation Index).


Ter trabalhos publicados na base SCI é condição quase que obrigatória para se formar e obter promoções em muitas instituições chinesas, de forma que muitos alunos e cientistas estão dispostos a pagar para conseguir isso. E onde há demanda, claro, há oferta: das 27 agências consultadas, apenas 5 se recusaram a escrever trabalhos ou vender autorias, segundo a reportagem.

Várias dessas empresas anunciam seus serviços abertamente na internet. “É incrível: você pode publicar trabalhos na SCI sem fazer nenhum experimento!”, anuncia uma delas, chamada Sciedit. Outra empresa, chamada Wanfang Huizhi, ofereceu ao repórter uma vaga de co-primeiro autor num trabalho de pesquisa sobre câncer por US$ 14.800. O artigo sairia no International Journal of Biochemistry & Cell Biology, da editora Elsevier – o que de fato aconteceu, algumas semanas depois, com dois autores principais, um dos quais (Wang Yu) não tem nenhum histórico de produção científica (link do artigo: http://migre.me/gNSOr).

Uma investigação subsequente da revista, após ser procurada pela reportagem da Science, revelou que quatro autores haviam sido incluídos e dois retirados no processo de edição do trabalho. A editora da revista, Joanna Kargul, reconheceu que “a mudança de autoria passou despercebida pelo radar dos revisores e do editor responsável” pelo trabalho. O gerente da Wanfang Huizhi, Huang Wei, negou as acusações de que a empresa comercializa autorias em trabalhos científicos e disse que quem fez a oferta ao repórter poderia ser algum ex-funcionário, agindo fora dos canais oficiais da empresa.

Em outros casos investigados pela reportagem, os valores ofertados por autoria em trabalhos alheios variaram de US$ 1.600 a US$ 26.300. Caso o pesquisador tivesse medo de incluir seu nome num trabalho sem conhecer a origem dos dados, não tinha problema: ele poderia optar por “encomendar” um artigo de revisão, ou meta-análise, baseado em dados já publicados por outros autores. Afinal, o que vale para a promoção é ter um trabalho publicado na SCI — o conteúdo, a qualidade ou a relevância da pesquisa são questões secundárias.

A íntegra da reportagem, que certamente terá um impacto grande na reputação da ciência chinesa, pode ser lida no site da Science (o acesso é pago, mas vale a pena a leitura, para aqueles que se interessam pelo assunto). Dois meses atrás, a revista publicou uma outra reportagem investigativa, sobre um trabalho falso que foi aceito para publicação em mais de 150 periódicos de acesso aberto, disponível neste link: http://migre.me/gNStX.