Investigação sobre pesquisa com células-tronco no Japão conclui que houve má conduta por parte dos pesquisadores

Investigação sobre pesquisa com células-tronco no Japão conclui que houve má conduta por parte dos pesquisadores

Herton Escobar

01 Abril 2014 | 14h43

Centro japonês deverá pedir a retratação (anulação) do trabalho, publicado no início deste ano na revista Nature

FOTO: Rioji Noyori, presidente do Riken, em entrevista coletiva sobre a investigação. Crédito: REUTERS/Yuya Shino

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

O centro de pesquisas Riken, no Japão, divulgou hoje o relatório de sua investigação interna dos questionamentos levantados pela comunidade científica internacional sobre a pesquisa com células-tronco STAP, publicada recentemente por um grupo de cientistas do instituto na revista Nature. A investigação concluiu que houve má conduta por parte dos pesquisadores em dois dos seis itens analisados, e que o centro vai pedir a retratação (anulação) do trabalho.

Um resumo do relatório, em inglês, está disponível neste link: http://migre.me/iBEdE.  A versão completa do relatório está sendo traduzida do japonês e deverá ser publicada em breve, segundo as informações do site.

“O comitê confirmou que houve má conduta científica por parte de um dos autores durante o processo de formulação dos trabalhos. Somado a isso, vários dos co-autores falharam em perceber que havia problemas com a acurácia dos dados e com a legitimidade das conclusões dos trabalhos; e o relatório aponta para essa grave responsabilidade neste caso de má conduta. Isso é extremamente lamentável”, afirma o presidente do Riken, Ryoji Noyori, em um posicionamento por escrito, publicado no site do instituto (

). Ele diz que os autores do trabalho foram informados do resultado da investigação e terão uma oportunidade de se explicar e de recorrer das conclusões. Caso a má conduta seja confirmada, Noyori diz que vai solicitar a retratação do trabalho na Nature.

A autora principal da pesquisa é uma jovem bióloga chamada Haruko Obokata. Segundo informações traduzidas do relatório de investigação e publicadas nos site ScienceInsider e Nature News, o comitê concluiu que Obokata falsificou uma imagem do trabalho (figura 1i), substituindo uma das colunas de um gel de eletroforese por outra; e “fabricou” outras duas imagens de células (nas figuras 2d e 2e) , que teriam sido copiadas de sua tese de doutorado — que utilizava uma técnica diferente da do trabalho na Nature (http://migre.me/iBEGU).

Figura 1 do trabalho, com a foto de um gel de DNA que teria sido adulterada (1i)

Parte da Figura 2 do trabalho, com as imagens questionadas.

Obokata divulgou uma nota pessoal dizendo que não houve má conduta e que vai recorrer das conclusões do comitê. Segundo ela, a substituição da coluna de gel na figura 1i foi feita para melhorar a visualização dos resultados e não interfere nas conclusões do trabalho. Já o problema relacionado às imagens de células nas figuras 2d e 2e seria resultado de uma confusão não intencional entre fotos parecidas — ela teria, apenas, colado as imagens erradas no trabalho. Obokata diz que os erros já haviam sido identificados por ela mesma e que uma correção já foi enviada à revista Nature para publicação.

Rigor japonês. Chama atenção a seriedade e rapidez com o que o Riken tratou da situação. Os comunicados da instituição usam palavras duras para condenar os supostos atos de má conduta e deixar claro que os pesquisadores envolvidos serão punidos. O centro informa que vai criar um comitê consultivo internacional de especialistas para revisar as normas de conduta e segurança da instituição, para garantir que esse tipo de problema não ocorra novamente.

A pesquisa em questão descreve uma nova técnica para transformação de células adultas em células-tronco pluripontes (denominadas STAP cells), com potencial para se transformar em qualquer tipo de tecido do organismo. Vários grupos de pesquisa relataram ter tentado reproduzir os resultados, sem sucesso. Além disso, foram levantadas dúvidas sobre algumas das imagens e dados apresentados na pesquisa.

Outros pesquisadores do Riken, agora, serão incumbidos de tentar reproduzir os resultados de Obokata, para tirar a dúvida se a técnica descrita por ela no trabalho realmente funciona. Charles Vacanti, pesquisador da Faculdade de Medicina de Harvard, que é um dos co-autores do trabalho, afirmou recentemente à imprensa que alguns erros, de fato, foram cometidos, mas que os resultados são válidos e que a técnica, de fato, funciona.

O comitê de investigação analisou as anotações pessoais de Obokata e outros registros técnicos relacionados à pesquisa, mas não conseguiu determinar se os experimentos descritos no trabalho são verdadeiros ou não. “As ações da Dra. Obokata e seu desleixo no gerenciamento de dados nos leva a concluir que ela não só carece lamentavelmente de um senso ético em pesquisa, mas também de integridade e humildade como pesquisadora”, diz o relatório do comitê, segundo o site ScienceInsider.

Post atualizado às 20h30.

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