JOIAS DO MAR

JOIAS DO MAR

Herton Escobar

28 Julho 2010 | 21h06

Karl Bruun, Nostoca Algae Laboratory, photo courtesy of Nikon Small World

FOTO: Karl Bruun, Nostoca Algae Laboratory, photo courtesy of Nikon Small World

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A notícia sobre essa imagem aí de cima já está circulando na internet desde cedo, mas eu não podia deixar passar uma coisa linda dessas sem escrever alguma coisa a respeito.

O que você está vendo nessa nesta foto são microrganismos chamados diatomáceas. Cada um desses gominhos e cubinhos é um ser vivo completo, ainda que composto de uma única célula (unicelular). Em alguns casos as células estão grudadas umas nas outras, mas ainda assim são vários indivíduos, e não um único organismo multicelular (como se fossem várias pessoas andando de mãos dadas, mas cada uma biologicamente independente da outra).

As diatomáceas são muito mais importantes na sua vida do que você provavelmente imagina. Se você já ouviu falar de fitoplâncton, então já ouviu falar delas. As diatomáceas são uma parte importantíssima do fitoplâncton marinho e realizam nada mais nada menos do que 1/5 de toda a fixação de carbono via fotossíntese do planeta. Elas são pequenininhas (microscópicas) e não vivem tanto quanto uma árvore na Amazônia, mas há muitas delas por aí. MUITAS MESMO!!!

Para se ter uma ideia, um único mililitro de água marinha pode conter facilmente umas 10 mil células desse tipo — sem falar em mais alguns milhões e milhões de bactérias, que são ainda muito menores do que elas. Multiplique isso pela superfície luminosa de todos os oceanos da Terra, e você tem uma ideia de quanto CO2 esses bichinhos estão sugando da atmosfera e quanto O2 eles estão cuspindo de volta para a gente respirar.

Aliás, aproveito para lembrar que essa história de a Amazônia ser o pulmão do mundo é a maior balela ecológica de todos os tempos. Temos milhões de razões para preservar a Amazônia, mas produção de oxigênio certamente não é uma delas. Tudo que a floresta produz de oxigênio durante o dia via fotossíntese ela suga de volta durante a noite, via respiração (é isso mesmo, as plantas também respiram). Portanto, se há alguém que pode ser chamado de pulmão do mundo, esse alguém é o fitoplâncton. Juntos, esses microrganismos todos produzem nada menos do que 50% de todo o oxigênio de origem fotossintética do planeta.

Um estudo publicado na Nature hoje sugere que as concentrações de fitoplâncton nos oceanos está em queda, com uma redução de 40% desde 1950. Ninguém vai morrer sufocado amanhã por causa disso. Mas é algo a se observar com extrema cautela. Pode ser indício de algum distúrbio ambiental significativo, possivelmente relacionado ao aquecimento das águas oceânicas.

Abraços a todos.

Ah, e só para clarificar: ao dizer que o fitoplâncton é o “verdadeiro pulmão do mundo” não quero dizer que, sem ele, o oxigênio da Terra acabaria imediatamente. É apenas uma figura de linguagem. 21% da atmosfera é composta de oxigênio, então não vamos morrer tão cedo por falta desse gás.

A maior importância mesmo do fitoplâncton é que seus organismos são os chamados “produtores primários” da cadeia alimentar oceânica. Sem eles, todo o resto da cadeia entraria em colapso e grande parte da biodiversidade dos mares seria extinta. O fitoplâncton se alimenta de luz solar. Larvas de peixes, crustáceos e outros seres pequeninos se alimentam do fitoplâncton. Animais maiores se alimentam desses animais menores. Animais ainda maiores se alimentam desses últimos e assim por diante….. no fim das contas, até o grande tubarão-branco depende das minúsculas diatomáceas para sobreviver. Imagine só!

Abraços a todos, de novo.

E mais um update: Escrevi para o professor David Siegel, professor de Ciências do Mar na Universidade da Califórnia Santa Barbara, que comenta o estudo na revista Nature e perguntei a ele o que aconteceria, de fato, se toda a fotossíntese do planeta parasse de funcionar. Em outras palavras, se o fitoplâncton, as algas, as plantas terrestres e todos os outros organismos fotossintetizantes do planeta fossem exterminados. … ?

A resposta, infelizmente, é essa mesmo: eventualmente, todo o oxigênio da atmosfera seria consumido pela respiração de animais e microrganismos aeróbios, e morreríamos todos. Qui beleza!

E agora, quem se importa com as diatomáceas?