Lama que atingiu o Rio Doce não é tóxica, diz relatório

Lama que atingiu o Rio Doce não é tóxica, diz relatório

Monitoramento feito pelo Serviço Geológico do Brasil e pela Agência Nacional de Águas não detectou nenhuma contaminação por metais pesados na água nem nos rejeitos que vazaram da barragem da Samarco em Mariana

Herton Escobar

15 Dezembro 2015 | 19h32

Colatina, às margens do Rio Doce tomado pela lama. Foto: Herton Escobar/Estadão

Rio Doce, tomado pela lama, passa pela cidade de Colatina (ES), em 21/11/2015. Foto Herton Escobar/Estadão

A lama que atingiu o Rio Doce não é tóxica e a água do rio não está contaminada por metais pesados, segundo um relatório divulgado hoje pela Agência Nacional de Águas (ANA) e o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), que monitoram os impactos do rompimento da barragem do Fundão, da mineradora Samarco, ocorrida em 5 de novembro. Foram analisadas amostras de água e sedimentos de 25 pontos, distribuídos desde o epicentro do desastre em Mariana (MG) até a foz do Rio Doce, em Linhares (ES).

“Os resultados confirmam que, depois de adequadamente tratada pelas companhias de saneamento de forma a torná-la compatível com os padrões de potabilidade estabelecidos pela Portaria 2.914 do Ministério da Saúde, a água pode ser consumida sem riscos”, diz um comunicado publicado pelas duas agências no fim da tarde de hoje.

“Com relação à presença de metais pesados dissolvidos em água (cátions): arsênio, cádmio, mercúrio, chumbo, cobre, zinco, entre outros, os resultados de 2015 são, de modo geral, similares a levantamentos realizados pela CPRM em 2010. Os valores obtidos nas coletas indicaram condições em conformidade com a Portaria 2.914 do Ministério da Saúde, exceto para o manganês dissolvido que, no entanto, também pode ser tratado para padrões adequados ao consumo nas Estações de Tratamento”, diz ainda a nota.

Dois relatórios detalhados foram publicados: um sobre o deslocamento da onda de lama gerada pelo rompimento da barragem e outro, sobre o monitoramento da qualidade da água nos rios por onde essa onda passou. Os documentos na íntegra estão disponíveis aqui: http://goo.gl/4nZbLt.

Curiosamente, as concentrações mais altas de arsênio, manganês e ferro encontradas nesse monitoramento estavam no Rio do Carmo, em locais não afetados pelos rejeitos da barragem. “Esses valores anômalos são compatíveis com as características geológicas de áreas do Quadrilátero Ferrífero, como na região entre Ouro Preto e Mariana”, diz o Relatório 2. “As amostras de água coletadas ao longo do Rio Doce não evidenciaram a presença de metais dissolvidos em quantidades que possam ser consideradas como contaminadas”, conclui o documento.

Capa do Relatório 1.

Capa do Relatório 1.

Composição da lama

Também não foram detectadas concentrações tóxicas de metais pesados em amostras da lama coletadas no entorno da barragem e no distrito de Bento Rodrigues. A mortandade de peixes ao longo dos rios teria sido causada não por toxicidade dos rejeitos, mas pela elevada concentração de sedimentos (turbidez) na água durante a passagem da lama, que reduziu a concentração de oxigênio dissolvido na água e também “entupiu” as guelras dos peixes, fazendo com que eles morressem asfixiados.

Os resultados corroboram o posicionamento oficial das empresas responsáveis pela barragem (Vale e BHP, donas da Samarco), segundo as quais “os rejeitos que entraram no Rio Doce são compostos de materiais de argila e lodo, provindos da lavagem e processamento de terra contendo minério de ferro, que é naturalmente abundante na região”.

Algumas análises contratadas por municípios e realizadas por cientistas independentes, porém, detectaram concentrações elevadas de alguns metais (como arsênio e chumbo) em alguns pontos do Rio Doce. Mais detalhes aqui: Cientistas acham metais pesados em água com lama do Rio Doce

Segundo Manoel Barretto da Rocha Neto, diretor-presidente do CPRM, a diferença deve-se ao fato de os cientistas terem medido a concentração total de metais (em suspensão e dissolvidos), enquanto que o CPRM mede apenas a porção dissolvida. “É uma sistemática de trabalho que usamos há mais de 40 anos, no Brasil inteiro”, explicou ele, em entrevista ao Estado. O valor total, segundo o geólogo, depende da turbidez, que ficou extremamente elevada com a passagem da onda de rejeitos, mas que tende a cair e voltar à normalidade à medida que os sedimentos forem carreados para o oceano.

Rocha Neto disse o Quadrilátero Ferrífero mineiro é uma região “naturalmente anômala”, por concentrar um grande número de atividades mineradoras; mas ressaltou que a lama que vazou da barragem do Fundão não é tóxica. “É rejeito de minério de ferro, e rejeito de minério de ferro é basicamente ferro e sílica”, disse. “Nenhuma das amostras mostrou teores altos de elementos tóxicos.”

Mapa do Relatório 2 da ANA/CPRM, mostrando os pontos de amostragem do monitoramento.

Mapa do Relatório 2 da ANA/CPRM, mostrando os pontos de amostragem do monitoramento.