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Lua de Saturno tem lago subterrâneo de água líquida

hertonescobar

03 abril 2014 | 16:15

A pequena Encélado, de apenas 500 km de diâmetro, teria um grande reservatório de água, 30 km abaixo de sua superfície congelada, segundo estudo publicado na revista ‘Science’.

FOTO: A lua Encélado, com suas “listras de tigre” azuladas, abaixo das quais acredita-se haver um oceano de água líquida. Crédito: Nasa/JPL/Space Science Institute

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

A busca por ambientes capazes de abrigar vida extraterrestre no sistema solar acaba de ganhar mais um alvo: uma pequena lua de Saturno, chamada Encélado (ou Enceladus), com apenas 500 km de diâmetro — sete vezes menor do que a Lua da Terra.

Em um estudo publicado hoje na revista Science, cientistas apresentam evidências de que ela contém um grande reservatório subterrâneo de água líquida, localizado entre 30 km e 40 km abaixo da crosta congelada de seu Hemisfério Sul, com 8 km de profundidade e um volume de água equivalente ao do Lago Superior, o terceiro maior lago continental da Terra, na fronteira dos EUA com o Canadá (com 12 mil km³ de água).

Os pesquisadores não viram nem muito menos coletaram amostras desse suposto lago subterrâneo. As evidências de que ele existe são sólidas, porém indiretas, obtidas por meio do estudo de variações no campo magnético de Encélado, registradas pela sonda Cassini, da Nasa. Os dados foram coletados em três sobrevoos rasantes, nos quais a sonda passou a menos de 100 km da superfície da lua.

A hipótese da existência do lago já é discutida desde 2005, quando a mesma sonda Cassini fotografou jatos de vapor e gelo sendo expelidos de fendas no Hemisfério Sul de Encélado, que é marcado na superfície pela presença de “listras” azuladas, parecidas com as de um tigre. Os novos dados geofísicos corroboram essa hipótese e sugerem que os jatos sejam produzidos por gêiseres conectados a esse lago através de fendas formadas na crosta de gelo pela força de marés.

A grande pergunta que fica solta no espaço é: Pode haver vida nesse lago?

A resposta tem de levar em conta outra conclusão do trabalho: de que o núcleo de Encélado é feito de rocha, e que o fundo desse tal lago subterrâneo está em contato direto com esse núcleo. Em outras palavras: o fundo do lago é rochoso. E, portanto, a possibilidade de haver vida (microbiana!) em suas águas existe, ainda que seja bastante remota (e, por enquanto, totalmente hipotética), se houver alguma fonte geológica de calor no interior da lua. Basta olhar para o leito dos oceanos na Terra para comprovar isso: mesmo em suas profundezas mais profundas e gélidas, ele está coberto de vida microbiana, cuja existência independe do contato com a luz ou com o calor da superfície.

Vale lembrar também o caso do Lago Vostok, que pode abrigar vida 4 km abaixo de uma crosta de gelo na Antártida.

Enceladus, portanto, passa a fazer dupla agora com Europa, uma lua congelada de Júpiter, como um satélite potencialmente habitável do sistema solar. Imagine só!

“A confirmação da existência desse bolsão de água confirma a posição de Encélado como um dos grandes alvos para futuras missões de busca de vida fora da Terra, juntamente com Europa e Marte”, diz o brasileiro Fabio Rodrigues, pesquisador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e membro da Rede Brasileira de Astrobiologia.

“O material expelido nos jatos do polo sul de Encélado contém água salgada e moléculas orgânicas, que são os ingredientes químicos básicos da vida”, diz Linda Spilker, cientista da missão Cassini, em material divulgado pela Nasa. “A descoberta desses jatos expandiu nossa visão da ‘zona habitável’ dentro do sistema solar. Essa validação de que há um oceano de água sob os jatos aprofunda nosso conhecimento a respeito desses ambientes intrigantes.”

Saturno, o “Senhor dos Anéis”, tem 53 luas catalogadas (fora algumas outras que não têm nome ainda).

FOTO: Desenho de como seria o interior de Enceladus, com uma crosta de gelo, núcleo de rocha, e um possível lago de água líquida entre eles no Hemisfério Sul (e jatos sendo expelidos por rachaduras no pólo sul). Crédito: Nasa/JPL-Caltech

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