MAKEMAKE, NOTÍCIAS DE UM PLANETA-ANÃO

MAKEMAKE, NOTÍCIAS DE UM PLANETA-ANÃO

Herton Escobar

22 Novembro 2012 | 16h07

Makemake (pronunciado “Maqui-maqui”) … Já ouviu falar?

Se não ouviu, prepare-se!

Makemake é um dos cinco planetas-anões do Sistema Solar – aquela nova categoria criada em 2006 pela União Astronômica Internacional (IAU) para resolver a polêmica disputa sobre a classificação de Plutão (que no fim deixou de ser planeta e virou planeta-anão). Os outros são Ceres, Haumea e Éris … e é bem possível que a família cresça no futuro, à medida que mais anões são descobertos.

(As descrições oficiais e mais detalhadas de planetas vs. planetas-anões podem ser lidas nesta página da IAU.)

Makemake foi descoberto em 2005, mas pouco se descobriu sobre ele desde então. Basicamente, porque não é fácil estudar um objeto distante, pequeno e pouco brilhante como ele aqui da Terra. Estudar Plutão já é difícil, e o Makemake é menor ainda, e está ainda mais longe do que ele. Ele leva 308 anos para dar uma volta ao redor do Sol, e sua órbita elíptica e inclinada o leva de 38 a 53 vezes a distância entre o Sol e a Terra (distância chamada de Unidade Astronômica).

Essa distância de conhecimento, porém, foi reduzida hoje com um trabalho publicado na revista Nature, em que astrônomos europeus e sul-americanos (incluindo vários brasileiros) relatam os resultados da observação mais detalhada já feita do Makemake até agora. Entre outras coisas, calcularam seu tamanho “exato”, sua densidade, seu albedo, e descobriram que ele, ao contrário do que se imaginava, não tem atmosfera. Imagine só!

Tudo isso graças a um evento muito especial, chamado ocultação estelar, que ocorre quando um planeta (anão ou não anão) passa diretamente na frente de alguma estrela distante, bloqueando momentaneamente sua luz vista da Terra — em outras palavras, causando um eclipse. Foi o que aconteceu em 23 de abril de 2011, quando o Makemake passou na frente da luz da estrela NOMAD 1181-0235723.

O eclipse durou apenas um minuto, mais foi suficiente para revelar vários detalhes sobre o planetoide gelado.

Nesse dia, 16 telescópios (6 deles no Brasil) foram apontados para o ponto de encontro do Makemake com a NOMAD, e 7 deles conseguiram registrar a ocultação (1 deles no Brasil, o Zeiss do Observatório Pico dos Dias, do Laboratório Nacional de Astrofísica, em MG). A observação do eclipse de vários ângulos, por meio de vários telescópios, permitiu medir o tamanho do planetoide com grande precisão.

Precisão. Os pesquisadores concluíram que Makemake é uma esfera ligeiramente ovalada, com um diâmetro de 1.430 quilômetros – com uma margem de erro de 9 km para mais ou para menos – , cerca de dois terços do tamanho de Plutão e Éris. “É um grau de precisão incrível”, diz o pesquisador Roberto Vieira Martins, do Observatório Nacional, um dos 15 autores brasileiros do estudo.

A principal contribuição científica do País no projeto, segundo ele, foi na previsão do eclipse, que ocorreu com cerca de um ano e meio de antecedência, no fim de 2009, e envolveu uma série de pesquisadores e observatórios brasileiros. “Estamos falando de uma coisa muito pequena, passando na frente de outra coisa muito pequena. É muito difícil de prever”, conta Martins. A distância e o tamanho do Makemake, segundo ele, equivalem a observar uma moeda de R$ 1 a 120 km de distância.

A densidade calculada do Makemake é de 1.7, numa escala em que a densidade da água é 1. Isso confirma a previsão de que ele é feito principalmente de gelo. E não muito mais do que isso .. é, literalmente, uma bola de gelo girando ao redor do Sol. E seu albedo (grau de refletividade) é de 0,77, numa escala em que o albedo de neve branca é 1. O que indica que o gelo na sua superfície é relativamente recente (da ordem de milhões de anos) e não muito sujo. Tá refletindo bem ainda!

Os cientistas concluíram que ele não tem atmosfera por causa da maneira abrupta com que a luz da estrela “desapareceu” e depois reapareceu durante o eclipse. Se Makemake tivesse atmosfera, a transição seria mais gradual, à medida que a atmosfera entrasse na frente da luz antes do parte sólida do planetoide.

Makemake, por fim, é o nome do deus da fertilidade e criador de todos os seres na cultura Rapanui, da Ilha de Páscoa. O planetoide recebeu esse nome porque foi descoberto pouco depois da Páscoa de 2005, e porque a mulher de seu descobridor, o astrônomo Mike Brown, estava grávida na ocasião.

Mais informações no site da Nature e neste release do ESO.

FOTO ACIMA: Esta concepção artística mostra a superfície do distante planeta anão Makemake. Este objeto tem cerca de dois terços do tamanho de Plutão e viaja em torno do Sol numa órbita distante, que se situa além de Plutão, mas mais próximo do Sol do que Éris, o planeta anão de maior massa conhecido no Sistema Solar. Esperava-se que Makemake tivesse uma atmosfera como Plutão, no entanto, verificou-se agora que não é o caso. Crédito: ESO/L. Calçada/Nick Risinger (skysurvey.org)