Mapas que excluem ilhas de novas áreas protegidas marinhas não são definitivos

Mapas que excluem ilhas de novas áreas protegidas marinhas não são definitivos

Mapas são reais, mas são apenas um entre vários desenhos que já foram propostos. Limites das unidades de conservação para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo e para a Ilha Trindade ainda estão em negociação dentro do governo

Herton Escobar

08 Março 2018 | 23h40

Dois mapas que “vazaram” hoje nas redes sociais, mostrando os limites das novas áreas protegidas do Arquipélago de São Pedro e São Paulo e da Ilha Trindade, não são os mapas finais que o governo está propondo para essas novas unidades de conservação, segundo informações obtidas pelo blog.

Os mapas causaram indignação na comunidade científica e ambientalista, por excluir as ilhas e a maior parte dos seus respectivos entornos marítimos da zona de proteção — protegendo apenas áreas de oceano aberto. Pois é justamente nessas áreas mais rasas e costeiras que estão localizados os ambientes ecologicamente mais ricos, sensíveis, diversificados e carentes de proteção das ilhas.

Mapas que circularam nas redes sociais excluem as ilhas das zonas de proteção propostas. Fonte: Reprodução das redes sociais

Segundo o Estado apurou, os mapas são reais e refletem a preferência de uma das partes envolvidas no processo (mais especificamente, a Marinha do Brasil), mas não são uma proposta final do governo e não foram apresentados publicamente no World Ocean Summit, que está em curso no México, como se divulgou nas redes sociais.

“Não existe uma proposta da Marinha e outra do Ministério do Meio Ambiente; é uma negociação que está em curso, envolvendo diversos atores, incluindo a Presidência da República”, disse o secretário de Biodiversidade do MMA, José Pedro de Oliveira. “Vários desenhos já foram propostos e esse é um deles, mas o desenho final só poderá ser definido após o término das consultas públicas (no dia 10).”

Segundo Zé Pedro, “não existe a possibilidade de as ilhas ficarem sem proteção” — mas os limites exatos de cada área protegida ainda estão em negociação. “O MMA está batalhando para ter a maior área possível de proteção integral em torno das ilhas. O ministro Sarney Filho está profundamente empenhado nisso”, disse o secretário.

“Não houve nenhuma divulgação oficial desses mapas”, disse o representante do ICMBio na conferência do México, Claudio Maretti. O que houve, segundo ele, foi uma coletiva de imprensa envolvendo representantes de quatro países (Brasil, Canadá, México e Chile), na qual ele divulgou um press release e mostrou um mapa genérico com a localização das novas áreas marinhas protegidas, sem entrar em detalhes sobre os limites internos de cada unidade — até porque esses limites não estão definidos.

“A situação de negociação existe”, confirmou Maretti ao blog. “E nunca negamos que é uma negociação dura.” Ele disse não saber qual foi a fonte de “vazamento” dos mapas.

Amanhã (sexta-feira, 9) será divulgado no evento do México o vídeo com a declaração do presidente Michel Temer sobre as novas áreas protegidas, que já está circulando nas redes sociais — inclusive nos canais oficiais do Palácio do Planalto (veja abaixo).

Procurada pela reportagem, a Marinha afirmou em nota que: “Os traçados dos referidos mapas apresentados resultam de um acordo entre o Ministério do Meio Ambiente e a Marinha do Brasil, com o propósito de conciliação da preservação de Soberania e Defesa Nacional e da biodiversidade.”

“A proposta apresentada nos mapas que vieram a público inviabiliza totalmente qualquer ação de conservação de longo prazo”, diz uma carta assinada por 15 cientistas, enviada ao presidente Temer, aos ministros do Meio Ambiente, da Defesa, e ao comandante da Marinha: 

— Texto atualizado às 7h do dia 9; e novamente às 11h do dia 10 (com o posicionamento da Marinha).