Mar de lama da Samarco se espalha pelo litoral capixaba

Mar de lama da Samarco se espalha pelo litoral capixaba

Herton Escobar

23 Novembro 2015 | 07h00

Mancha de lama avançando sobre o mar capixaba. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Mancha de lama avançando sobre o mar capixaba. Foto: Gabriela Biló/Estadão

REGÊNCIA, Linhares (ES)

A onda de lama da mineradora Samarco chegou com tudo ao oceano ontem, formando uma enorme mancha marrom que se projetava quilômetros sobre o mar desde a foz do Rio Doce, em Linhares, no norte do Espírito Santo. Uma pluma inicial de água barrenta já havia atingido a costa no fim da tarde de sábado, mas o que se formou ontem foi uma mancha muito mais escura e densa, com aparência de leite achocolatado.

A área afetada faz parte da Reserva Biológica de Comboios, uma unidade de conservação costeira que protege um dos únicos dois pontos regulares de desova de tartaruga-de-couro na costa brasileira — uma espécie criticamente ameaçada de extinção —, além de muitos ninhos de tartaruga-cabeçuda, também ameaçada de extinção. O coordenador nacional do Centro Tamar-ICMBio, Joca Thome, sobrevoou a mancha ontem à tarde e voltou para terra visivelmente abalado. “Nem sei o que falar. É terrível; uma calamidade”, disse ao Estado, com a voz embargada, pouco depois de sair do helicóptero. “Parece uma gelatina marrom se esparramando mar adentro.”

Simulação da dispersão de onda de lama no mar, saindo pelo Rio Doce, feita pelo laboratório do Prof. Paulo Rosman, da Coppe-UFRJ.

Simulação da dispersão de onda de lama no mar, saindo do Rio Doce, feita pelo laboratório do Prof. Paulo Rosman, da Coppe-UFRJ, segundo a qual o impacto será limitado a 9 km de costa. (Clique na imagem para ver a animação)

A onda de lama percorreu 650 km de rio desde o rompimento das barragens de Mariana (MG), no dia 5, e chegou à costa capixaba justamente no pico da época de desova das tartarugas. Equipes do Tamar vêm retirando diariamente da praia os ovos colocados pelas tartarugas — numa média de 40 ninhos por noite — e transferindo-os para outros pontos da costa. A praia agora continuará a ser monitorada, para ver como as tartarugas reagem à presença da lama.

A previsão do Ministério do Meio Ambiente, baseada em projeções feitas por uma equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), era de que a lama se espalharia por 9 quilômetros da costa do Espírito Santo. Mas técnicos que estão acompanhando a chegada da mancha no campo acreditam que a área impactada será muito maior. “Só o que eu vi hoje parece ser mais do que isso”, desabafou Thome.

Leia também: Lama expõe histórico de degradação ambiental no Rio Doce

Dezenas de quilômetros rio acima, passando pelos centros urbanos de Linhares e Colatina, as águas do Rio Doce continuavam completamente marrons ontem, mostrando que ainda há muita lama para chegar ao mar. Pesquisadores alertam que os sedimentos, independentemente de serem tóxicos ou não, vão impactar profundamente todos os ecossistemas fluviais, terrestres e oceânicos da bacia do Rio Doce.

Pesquisador mostra a lama impregnada nas brânquias de um mandi; um peixe de água doce que desceu para a foz do Rio Doce fugindo da onda de lama. Os peixes morrem pela dificuldade de respirar ou pelo

Pesquisador mostra a lama impregnada nas brânquias de um mandi; um peixe de água doce que desceu para a foz do Rio Doce fugindo da onda de lama. Os peixes morrem pela dificuldade de respirar ou pelo “choque osmótico”, quando entram na água salgada. Foto: Herton Escobar/Estadão

IMPACTO SISTÊMICO

Ontem mesmo, pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) já recolhiam peixes mortos na desembocadura do rio. Analisando os animais manualmente era possível ver claramente que suas guelras estavam impregnadas de lama. Mesmo com os níveis de oxigênio da água dentro do normal, esse “entupimento” das brânquias impede os peixes de respirar e eles morrem asfixiados.

A mortandade de peixes, porém, é apenas “uma pontinha do iceberg”, segundo o biólogo Paulo Ceccarelli, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais (Cepta) do ICMBio. O problema maior, e de mais longo prazo, é a extinção do plâncton e de outros pequenos organismos que formam a base da cadeia alimentar, que terá um efeito cascata sobre todo o ecossistema, impactando desde os herbívoros aquáticos até o carnívoros terrestres.

Mortandade de peixes é só a ponta do iceberg

Para piorar, esta é a época de desova dos peixes da piracema no Rio Doce, o que significa que, para cada peixe ovado que morrer, outros milhares de peixinhos deixarão de nascer. E mesmo que nasçam, explica Ceccarelli, não haverá plâncton, algas ou pequenos crustáceos disponíveis na água para eles se alimentarem. Sem peixes, faltará alimento para outros animais, como garças e lontras, e assim por diante. “Cada vida que é extinta do ecossistema leva muitas outras junto com ela”, sentencia o pesquisador.

“Isso aqui vai virar uma camada fóssil”, diz o biólogo Dante Pavan, do Grupo Independente de Análise de Impacto Ambiental (Giaia), um consórcio de cientistas que se juntaram via redes sociais para responder ao desastre do derramamento de lama.

Momento em que a mancha de lama mais grossa chegou ao mar, na tarde de ontem (dia 22). Foto: Gabriela Biló/Estadão

Momento em que a mancha de lama mais grossa chegou ao mar, na tarde de ontem (dia 22). Foto: Gabriela Biló/Estadão

Placa sobre desova de tartarugas na Reserva Biológica de Comboios, no distrito de Regência (Linhares, ES). Foto: Herton Escobar/Estadão

Placa sobre desova de tartarugas na Reserva Biológica de Comboios, no distrito de Regência (Linhares, ES). Foto: Herton Escobar/Estadão