MEDO DE NÃO TER MEDO

MEDO DE NÃO TER MEDO

Herton Escobar

21 Dezembro 2010 | 13h56

Imagine como seria bom não ter medo de nada. Viver a vida tranquilamente, sem qualquer tipo de temor … de bandidos, sequestradores, aranhas, cobras, aviões ou seja lá o que for que meta medo em você.

Imaginou?

A princípio, parece um bom negócio. Mas não se deixe enganar: o medo é absolutamente essencial à nossa sobrevivência! Imagine se você, que vive na selva de pedra da cidade, não tivesse medo de um bandido armado que entrasse na sua casa ou que te abordasse na rua. As chances de você fazer uma bobagem e levar um tiro seriam muito maiores. Ou imagine se você entrasse numa selva de verdade e saísse acariciando cobras e tigres por aí, achando tudo muito bonitinho … as chances de levar uma picada, ou uma mordida, ou morrer certamente seriam muito maiores.

(Antes de continuar, é preciso fazer uma distinção entre bravura, conhecimento e ausência de medo. Um índio da Amazônia não se assusta com uma aranha ou uma cobra, mas isso não significa que ele não sinta medo. Ele simplesmente conviveu o suficiente com esses animais para saber lidar com eles. Ele sabe como eles se comportam, quais são venenosos ou não, quais são agressivos ou não, etc. Ele sabe que uma tarântula no chão da floresta não vai de repente pular na sua cara para tentar matá-lo, por exemplo.  É só não mexer com ela que tudo bem … Assim como um policial que enfrenta um bandido e um bombeiro que entra num prédio em chamas também sente medo. A diferença é que eles foram treinados para enfrentar esse tipo de situação, e por isso conseguem controlar o medo instintivo que normalmente paralisaria outras pessoas numa situação semelhante.)

Por que estou falando disso? Por causa de um estudo muito curioso publicado na revista Current Biology. Nele, os cientistas relatam o caso de uma paciente que teve as amígdalas totalmente destruídas por uma doença (não as amígdalas da garganta, mas as do cérebro). As amígdalas cerebrais são estruturas internas parecidas com ameixas que estão diretamente envolvidas na geração das sensações de medo e atenção que nos permitem evitar situações de perigo, sair correndo delas quando possível ou até enfrentá-las, quando necessário. Isso ocorre por meio da liberação de neurotransmissores no sistema nervoso, que induzem a liberação de adrenalina na corrente sanguínea, ordenam o coração a bater mais forte, aceleram a respiração, aumentam nosso estado de alerta e várias outras reações fisiológicas que nos preparam para uma situação imediata de “lutar ou correr”.

“A amígdala está constantemente analisando todas as informações que passam pelo nosso cérebro, vindas dos diferentes sensores (visão, audição, olfato, etc), tentando identificar qualquer coisa que possa ameaçar nossa sobrevivência”, explica o pesquisador Justin Feinstein, da Universidade de Iowa. “Quando detecta algum perigo, ela comanda uma cascata de respostas fisiológicas que nos impelem a manter distância do perigo, aumentando, assim, nossas chances de sobrevivência.”

A paciente descrita no estudo é uma mulher de 44 anos, identificada pela sigla SM. Ela sente felicidade, tristeza, preocupação, é inteligente, social, dá risada quando vê alguma coisa engraçada … mas não sente medo. Pode enrolar uma cobra no pescoço dela ou mostrar o filme mais aterrorizante de todos os tempos que não adianta. Nada! Medo zero. De resto, tudo normal.

Os resultados não são exatamente uma novidade. Já faz tempo que os cientistas conhecem a relação entre as amígdalas cerebrais e o medo, com base principalmente em experimentos com animais. Mas confirmam de maneira contundente em seres humanos que sem amígdalas, de fato, não há medo. E que outras sensações, aparentemente, não são afetadas.

O mais incrível, para mim, é imaginar (ou melhor, saber) que uma sensação tão instintiva quanto o medo pode estar tão intimamente ligada a uma estrutura física … uma peça de uma máquina sem a qual ela não funciona. Muitos dos nossos medos mais básicos são realmente instintivos, no sentido de que nascemos com eles embutidos no nosso cérebro. Crianças têm um medo natural de coisas rastejantes e cheias de pernas, mesmo que nunca tenham sido picadas por uma delas, porque a evolução nos adaptou para isso ao longo dos milhões e milhões de anos que convivemos com animais peçonhentos na natureza. Está escrito no nosso DNA! E certamente no DNA da senhora SM também. Ela tem o software do medo, mas falta-lhe o hardware (as amígdalas) para fazê-lo funcionar. “É inacreditável que ela ainda esteja viva”, diz o pesquisador Feinstein.

Casos extremos como o dela são raros e ideais para a identificação de funções relacionadas a estruturas específicas do cérebro. Afinal, não há como induzir ou mesmo simular esse tipo de lesão em alguém só para fazer um estudo científico. Conhecer melhor a maneira como o cérebro processa o medo pode ser útil para o tratamento de pacientes com stress pós-traumático, por exemplo. Nesse caso, as pessoas são vítimas de um outro extremo, em que sentem um medo incontrolável, induzido por algum evento traumático sério, tipo sequestro ou situações de guerra (muito comum entre soldados). Mesmo estando em casa, longe do campo de batalha, eles sentem um medo constante de que o inimigo está à espreita, ou que uma bomba vai explodir … O medo é tão intenso que supera completamente a razão.

Algo parecido com a fobia. Lembro-me de uma chefe minha que não podia nem ver uma foto de rato no computador que já ficava morrendo de medo e nojo. Não consegui nem olhar para a imagem! Mar por que?? É óbvio que aquilo é apenas uma foto, que o rato não está lá nem vai sair criar vida no computador e pular em cima dela. Mas não tem jeito. O medo é mais forte do que a razão.

Mais uma vez, fico me perguntando se somos nós que mandamos no cérebro ou se é ele quem manda na gente. Se é que é possível separar uma coisa da outra.

Abraços a todos.