MICROSCÓPICOS MARCIANOS

MICROSCÓPICOS MARCIANOS

Herton Escobar

22 Agosto 2012 | 13h11

Imagine a Terra 3 bilhões de anos atrás. O planeta já estava cheio de vida, mas se você olhasse à sua volta, provavelmente não perceberia. A vida existe na Terra há 3,5 bilhões de anos, pelo menos, mas, durante 85% desse tempo, ela foi exclusivamente microscópica. Até 580 milhões de anos atrás, mais ou menos, todos os seres vivos eram microrganismos, nada mais complexos do que bactérias. O primeiros eucariotos (seres com células nucleadas e mais complexas, tipo as nossas), cerca de 1,5 bilhão de anos atrás. Os primeiros vertebrados, 520 milhões. E o homem, coitadinho, míseros 2 milhões anos atrás (a contar do primeiro hominídeo do gênero Homo), em números arredondados.

É uma história interessante para se ter em mente enquanto assistimos ao robô Curiosity, da Nasa, passear pela superfície marciana. Uma superfície alienígena que, 3,5 bilhões de anos atrás, talvez não tenha sido tão diferente da superfície terrestre quanto é hoje. Já é praticamente uma certeza, baseada em um grande número de evidências científicas, de que Marte um dia, no seu passado remoto, teve águas líquida em sua superfície. Provavelmente em grande quantidade e por longos períodos, suficientes para a formação de rios, lagos e bacias sedimentares.

E se as condições ambientais naquela época eram propícias à manutenção de água líquida na superfície, é bem possível que elas tenham sido propícias também à formação e/ou à sustentação da vida. Não necessariamente vida como a conhecemos. Nem necessariamente como a vemos hoje na Terra. Mas dentro dos limites dos quais acreditamos ser possível a sua existência. E é aí que vale a pena olharmos para o passado do nosso próprio planeta e a história de como a vida se desenvolveu por aqui desde os seus primórdios. Desde os primeiros organismos unicelulares de 3,5 bilhões de anos atrás até as milhões de espécies de animais, plantas, micróbios e fungos que nos fascinam hoje.


Esqueça todos os fósseis que você está acostumado a ver nos museus. Por mais antigos que sejam, eles são todos de seres vivos superevoluídos e relativamente recentes, do ponto de vista do tempo geológico. Os fósseis dos primeiros habitantes da Terra você dificilmente reconheceria como fósseis. Parecem pedras (e são!), mas pedras com características especiais, de origem biológica, chamadas estromatólitos. São recifes fossilizados, construídos bilhões de anos atrás por cianobactérias, camada por camada, da mesma forma que fazem hoje os corais e as algas calcáreas, por exemplo. Estruturas que um dia já estiveram no fundo do mar, mas que hoje brotam da areia no meio de regiões áridas na superfície de várias partes do globo (às vezes em altitudes elevadas). São o registro mais antigo de vida no planeta Terra.

Para estudar os primórdios da vida na Terra, portanto, vale mais ser geólogo do que biólogo. Como é o caso do geólogo Andrew Knoll, da Universidade Harvard, um dos maiores especialistas do mundo em estromatólitos e um dos palestrantes da Escola São Paulo de Ciência Avançada sobre Evolução (São Paulo School of Advanced Science – Evolution), que estou acompanhando em Ilhabela esta semana. (O curso é organizado pela Fapesp e tem 80 alunos de vários países.)

É insano pensar que uma camada de rocha no meio de uma montanha já foi um recife submarino bilhões de anos atrás. Mas foi. E quem sabe algo semelhante já não existiu em Marte? Pode ter sido em menor escala, e por muito menos tempo do que na Terra … não importa. Se o Curiosity encontrar evidências geológicas de que um dia já houve vida em Marte, seja lá qual for o tamanho dela, e mesmo que ela já esteja extinta há bilhões de anos, será uma das descobertas mais incríveis da história da humanidade. Com profundas implicações científicas e filosóficas.

Knoll reconhece que a possibilidade é “remota”. Faz 3 bilhões de anos que Marte é “tão árida quanto a vemos hoje”, e mesmo quando havia água líquida na superfície, as evidências disponíveis indicam que as propriedades químicas do ambiente eram pouco propícias ao desenvolvimento da vida. “Qualquer organismo com o qual estamos acostumados teria muita dificuldade em sobreviver ali”, diz.

Remota e difícil, sem dúvida. Mas ninguém nunca disse impossível. Knoll está de olho agora num paredão de rocha que o Curiosity já fotografou e deverá escalar em breve (os pés do Monte Sharp, no meio da cratera onde ele aterrissou). Mesmo de longe, dá para ver que ele tem camadas estatigráficas – ou seja: que é feito de rochas sedimentares, que um dia estiveram no fundo de um lago ou coisa parecida. Um lugar que seria perfeito para se encontrar fósseis na Terra. E, quem sabe, será também assim em Marte. Segundo Knoll, são mais de 1 mil metros de camadas sedimentares, contendo informações sobre, possivelmente, muitos milhões de anos de evolução marciana. Uma evolução que pode ter sido puramente geológica ou, quem sabem, também biológica. Com sorte, o Curiosity poderá saciar nossa curiosidade. Imagine só!