Mobilidade urbana: o grande desafio paulistano

Mobilidade urbana: o grande desafio paulistano

A arquiteta e urbanista Raquel Rolnik será uma palestrantes do próximo USP Talks, sobre Desafios Urbanos. Evento, que ocorre nesta quarta-feira, é gratuito e aberto ao público

Herton Escobar

25 Setembro 2017 | 15h00

Foto: Helvio Romero/Estadão

 

A cidade de São Paulo paga hoje o preço de muitas decisões equivocadas tomadas no passado. Mas a diminuição do crescimento populacional cria oportunidades para repensar o seu modelo de desenvolvimento, especialmente no que diz respeito à mobilidade urbana, diz a pesquisadora Raquel Rolnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, que será uma das palestrantes do próximo USP Talks, sobre Desafios Urbanos, nesta quarta-feira (27), das 18h30 às 19h30.

O USP Talks é uma iniciativa da Universidade de São Paulo, em parceria com o Estadão e apoio da Faculdade Cásper Líbero. Veja os detalhes do evento aqui: https://goo.gl/sncTr7; e assista às palestras anteriores do USP Talks aqui: https://goo.gl/WDpymV. O outro palestrante do evento será o engenheiro Alex Abiko, da Poli-USP. O evento é gratuito e aberto ao público.


Leia abaixo a entrevista que Raquel Rolnik concedeu ao USP Talks:

Do ponto de vista urbanístico, o que a senhora vê como os maiores desafios da cidade e da região metropolitana de São Paulo atualmente?

A questão central, estrutural, é o tema da mobilidade: 3 horas em média de tempo de deslocamento na cidade! Do ponto de vista urbanístico, temos que reverter uma situação cujo sintoma está nessa mobilidade urbana, historicamente marcada pelo deslocamento periferia-centro: casa-trabalho, casa-consumo, casa-entretenimento.

Para enfrentar isso, é evidente que temos de investir de forma absolutamente prioritária em transporte coletivo de massa, superando o modelo hegemônico de deslocamento por automóveis. Mas isso também implica em decisões do ponto de vista urbanístico que incluem frear as remoções e banimentos da população de baixa renda que habita o centro, e cada vez mais estruturar centralidades, ou reconhecer centralidades nas periferias.

Olhando para o passado, quais foram as grandes decisões — certas ou equivocadas — que moldaram a vida na cidade de São Paulo como a conhecemos hoje?

A história de São Paulo e a insustentabilidade do modelo urbanístico que nós temos hoje é fruto de decisões tomadas ao longo do tempo. Uma decisão absolutamente central, na década de 1930, sob Prestes Maia, foi a de privilegiar o transporte sobre pneus, associado a uma ideia de expansão ilimitada da periferia, estruturada por um sistema radial-concêntrico de vias. Esse modelo é o que estrutura a cidade de São Paulo até hoje, concentrando as oportunidades, os valores e o urbanismo de melhor qualidade no centro, e permitindo o acesso a vastas periferias por meio da mobilidade sobre pneus. Isso dialogou também com a mudança na matriz da habitação operária popular, que deixou de ser uma moradia de aluguel, muito mais densa e concentrada nas áreas centrais, para dar lugar à autoconstrução da casa própria nas periferias.

Outra decisão importante foi a leitura da relação da cidade com os rios e com o seu meio geográfico, na medida em que, para permitir uma expansão imobiliária da cidade e diminuir as restrições, os rios e córregos foram sendo canalizados para que suas margens pudessem ser ocupadas. Isso resultou em problemas seríssimos de drenagem e absorção de águas de chuva que persistem até hoje.

O mundo inteiro viveu um forte processo de urbanização nas últimas décadas, com uma concentração cada vez maior da população mundial nas cidades. Qual é a tendência atual de desenvolvimento populacional de São Paulo e outras grandes cidades brasileiras? Vão crescer ainda mais, ou esse processo está chegando ao fim? E quais as implicações disso para o desenvolvimento dessas cidades?

Nós estamos vivendo claramente um momento de transição demográfica. A curva de crescimento que foi quase vertical nos anos 1960 e 1970 começou a diminuir. Não é que a cidade parou de crescer, mas passou a crescer em ritmo cada vez mais lento e mudou sua forma de crescimento, passando a um crescimento vegetativo — ou seja, a partir das pessoas que já vivem ali — no lugar do crescimento migratório que marcou a história das cidades. Isso cria uma perspectiva muito positiva; o fato de a população não estar explodindo leva a crer que as políticas públicas possam acompanhar o crescimento da cidade, não só no sentido de consolidá-la mas também de melhorá-la e repensar o seu modelo histórico de expansão.

Hoje existe um movimento forte de “ocupação do espaço público” em São Paulo, evidenciado, entre outras coisas, pelo uso público da Avenida Paulista e do Minhocão nos finais de semana. O que parece ser um contraponto àquele modelo de condomínios fechados, que dominava o mercado imobiliário até pouco tempo atrás. Pode-se dizer que o paulistano está “saindo de trás do muro” para ocupar a cidade? Quais são os fatores que estão influenciando esse processo?

De fato, estamos vivendo uma mudança muito significativa na relação dos moradores com os espaços públicos. Nos anos 1980 e 1990 vivemos a era da explosão de enclaves fortificados (usando a expressão da professora Teresa Caldeira), que representam a ideia de uma reclusão para dentro de condomínios, shopping centers, espaços exclusivos, e do uso do espaço público apenas como um meio de circulação. Foram produtos imobiliários que implicaram em mudanças culturais e, ao mesmo tempo, responderam a elas. Isso começa a mudar por iniciativa dos próprios cidadãos, no sentido de ocuparem o espaço público e desejarem convivência.

Como explicar esse fenômeno? A cidade está ficando mais democrática? Há uma mudança cultural importante, mas as marcas do racismo, os estigmas e as tensões ainda existem; por exemplo, na criminalização dos moradores de rua e dos ambulantes, baseada numa ideia de que esses espaços públicos, na verdade, não são públicos, porque não podem ser utilizados por esse tipo de ocupação. Há ainda os modelos de vigilância e privatização dos espaços públicos, novos produtos imobiliários que contém espaços públicos, que na verdade não o são. Trata-se, portanto, de um processo complexo e contraditório.

A urbanista Raquel Rolnik. Foto: Martin Hunter