MORCEGOS ME MORDAM!

MORCEGOS ME MORDAM!

Herton Escobar

04 Abril 2011 | 11h20

FOTO: Merlin D. Tuttle, Bat Conservation International, www.batcon.org

.

Os morcegos são, talvez, os animais mais injustiçados do planeta. Graças ao drácula e ao Batman, e ao folclore popular e ao sensacionalismo midiático, têm fama de animais perversos, obscuros, sugadores de sangue. Mas não é nada disso. Na verdade, são animais extremamente benéficos, importantes e inofensivos. No geral, diria até que cães e gatos são muito mais perigosos do que morcegos.

Se não acredita em mim, aqui vão alguns dados científicos, e não folclóricos, sobre os morcegos para tentar se convencer:

1)      Há mais de 1.200 espécies de morcegos conhecidas no mundo e apenas 3 delas se alimentam de sangue. Segundo me informou o pesquisador Enrico Bernard, da Universidade Federal de Pernambuco, elas são: Desmodus rotundus, o morcego vampiro comum; Diaemus youngi, o morcego vampiro da asa branca; e Diphylla ecaudata, o morcego vampiro de pernas peludas. E apesar do nome “vampiro”, eles não saem por aí mordendo o pescoço das pessoas … em geral mordem animais grandes da floresta, ou vacas ou cavalos domesticados. E, na verdade, não chupam o sangue. Apenas fazem uma pequena ferida com os dentes e lambem o sangue que escorre para fora.

2)      Essas 1.200 espécies (1.232, para ser mais exato) representam quase um quarto de todas as espécies conhecidas de mamíferos no mundo. Ou seja: se você botasse representantes de todos os mamíferos do mundo dentro de uma sala (incluindo nós, seres humanos), 25% deles seriam morcegos.

3)      Os morcegos são polinizadores importantíssimos na natureza. Em um típico mercado de frutas tropicais, por exemplo, cerca de 70% dos produtos são oriundos de árvores, arbustos ou outras plantas polinizadas por morcegos, segundo dados divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Aqui na ilha de Bonaire, onde estou, no sul do Caribe, os morcegos são importantíssimos para a manutenção da flora local, principalmente para os cactus, já que não há muitas abelhas e outros insetos polinizadores.

4)      Ao se alimentar de insetos (e não de sangue), os morcegos também executam um serviço importantíssimo de controle de pragas agrícolas. Uma população de 20 milhões de morcegos que vivem na Caverna Bracken, no Texas, por exemplo, consome cerca de 200 toneladas de insetos todas as noites. E grande parte desses insetos são pragas agrícolas, como mariposas e lagartas, que, se não fossem devoradas pelos morcegos, teriam de ser controladas com agrotóxicos. Dependendo da espécie, um único morcego pode comer mais de mil insetos por noite.

5)      Segundo um estudo publicado na última edição da revista Science, a redução das populações de morcegos na América do Norte poderá causar prejuízos de US$ 23 bilhões ou mais, por ano, à agricultura. Em outras palavras, isso é quanto os agricultores teriam de gastar para matar os insetos que os morcegos, normalmente, comem de graça para eles.

O estudo, disponível neste link, chama atenção para dois problemas que têm afetado seriamente os morcegos na América do Norte: a “síndrome do nariz branco”, uma doença causada por um fungo, que afeta morcegos que vivem aglomerados em cavernas, e as colisões com turbinas eólicas, que afetam principalmente morcegos migratórios, que vivem em árvores. A primeira não tem cura. E a segunda, é um mistério … ninguém sabe explicar porque os morcegos são atraídos pelo movimento das turbinas.

O Brasil tem cerca de 170 espécies conhecidas de morcegos, o que representa 15% da espécies conhecidas no planeta, segundo Bernard. É o segundo país com a maior biodiversidade desse grupo – atrás da Colômbia, que tem cerca de 180 espécies.

A síndrome do nariz branco ainda não chegou por aqui, mas especialistas brasileiros chamam a atenção para outro problema que ameaça os morcegos brasileiros: o puro e simples desconhecimento. Mesmo com 170 espécies já catalogadas, cerca de 60% do território brasileiro nunca foi estudado para a presença de morcegos, segundo um levantamento publicado no ano passado por Bernard e outros colegas brasileiros na revista Mammal Review. E apenas 10% do território nacional pode ser considerado “minimamente” bem prospectado para morcegos, segundo eles.

Ou seja: com certeza há muito mais espécies de morcegos por aí, esperando para serem descobertas. O problema, alertam os pesquisadores, é que muitas dessas áreas não prospectadas estão em regiões de avanço da fronteira agrícola, como o norte de Mato Grosso. Ou seja: há um risco grande de essas espécies desconhecidas continuarem desconhecidas para sempre, se os agricultores chegarem lá antes dos pesquisadores.

Bem … não sei se convenci alguém a gostar de morcegos. Mas esses são os fatos.

Abraços a todos.

(Ah!, esqueci de dizer que este é o Ano Internacional do Morcego, lançado pelo Pnuma em setembro de 2010 … mais informações nest link.)