Não existe risco zero no oceano, diz pesquisador de tubarões em Noronha

Não existe risco zero no oceano, diz pesquisador de tubarões em Noronha

Apesar de nunca antes ter havido um ataque no arquipélago, não se pode esquecer que o mar é um ambiente selvagem, diz o engenheiro de pesca Leonardo Veras

Herton Escobar

24 Dezembro 2015 | 10h38

A Baía do Sueste. Foto: Zaira Matheus/All Angle

A Baía do Sueste, onde ocorreu o acidente. Foto: © All Angle By Zaira Matheus

O engenheiro de pesca Leonardo Veras, curador do Museu do Tubarão e morador de Fernando de Noronha há 25 anos, é um dos principais investigadores do ataque de tubarão ocorrido na Baía do Sueste, no dia 21 — o primeiro registrado na história do arquipélago. Ele acredita que a espécie envolvida seja o tubarão-tigre, que costuma se aproximar da costa no anoitecer, e defende restrições aos horários da prática de snorkel nas praias para reduzir o risco de novos acidentes.

“Noronha ficou muito vaidosa”, diz ele, em entrevista ao Estado. “Temos que ter a clareza e não perder o foco de que o tubarão é um animal selvagem, um predador. Embora tenhamos espécies mais frequentemente amistosas, podem ocorrer encontros com espécies visitantes de comportamento mais agressivo, como o tigre.”

Veja abaixo os destaques da entrevista, feita por telefone na tarde do dia 23.

Com base na sua experiência com os tubarões do Noronha, o que o senhor acha mais provável que tenha acontecido?

Nós temos alguns suspeitos. Tem as espécies mais comuns em Noronha: o tubarão-limão, o lixa e o tubarão-dos-recifes, que são os nossos tubarões “domésticos”, por assim dizer. Só que Noronha é rota de migração de outras espécies também, que usam o arquipélago como um entreposto no meio do oceano e passam alguns períodos aqui, que é o caso do tubarão-tigre, avistado esporadicamente.

Pela violência da mordida, eu elimino completamente o tubarão-lixa, pois ele não tem mandíbula com capacidade para causar esse tipo de ferimento. Os outros dois têm capacidade para arrancar um membro humano, mas teriam que cortar, rasgar a pele e parte da estrutura óssea. Para cortar osso mesmo, precisa ter um tipo de dente com lâmina serrada, como o tigre, capaz até de romper o casco de uma tartaruga. Então ele é o principal suspeito.

Como é o comportamento do tigre?

Estudos de pesca, captura e instalação de transmissores de GPS deixam claro que eles se afastam da costa durante o dia e se aproximam durante a noite. Eles passam um período aqui em Noronha, talvez algumas semanas ou meses, depois vão embora. Teve bicho que foi daqui para a África, outros para a Paraíba. Então estamos imaginando que este seja um animal que veio para Noronha se alimentar, dentro de sua rota migratória, e houve a infelicidade desse encontro num final de tarde.

Qual é a profundidade típica da Baía do Sueste?

Na parte mais funda, talvez uns 4 metros na maré alta. Há uma variação de mais de 2 metros entre as marés. Onde ocorreu o acidente deveria ter uns 2,5 metros de profundidade.

E um tubarão grande pode aparecer nessa profundidade?

Há relatos de tubarões adultos, grandes, se esfregando na praia, a ponto de encalhar. As pessoas acham que isso só acontece em águas profundas, mas as estatísticas internacionais sinalizam que dois terços dos ataques ocorrem em profundidade inferior a 1,8 metro.

Dá para estimar o tamanho do tubarão envolvido no ataque?

O acidentado relatou que foi um bicho de 1,5 metro, mas eu duvido; pela violência da mordida, um bicho desse tamanho não teria o poder de fazer isso num golpe só. Acredito que pelo momento traumático e pelas condições de visibilidade ele (a vítima) tenha se confundido na avaliação. A julgar pela tartaruga que foi abatida por um tigre na semana anterior, é bicho de mais de 2 metros — que é um tubarão pequeno. Um tigre adulto tem perto de 3 metros.

As pessoas acham que o tubarão morde porque está com fome, mas nesse caso é um comportamento do tubarão-tigre, que é o de morder pra investigar. Ele morde até bóia rapaz!”

O tigre é uma espécie envolvida em muitos ataques no mundo todo. Ele ataca sem motivo? Pode morder a pessoa sem ela ter feito nada?

É um comportamento esquisito, mas próprio do tubarão-tigre: Ele morde coisas estranhas! No estômago desse bicho já foram encontradas latas de cerveja, placas de carro, bola de futebol, e restos humanos também. Em animais capturados aqui em Noronha já achamos aves marinhas, outros tubarões, restos de golfinhos, carcaças de tartarugas marinhas e até de animais terrestres, como o lagarto teiú.

As pessoas acham que o tubarão morde porque está com fome, mas nesse caso é um comportamento dessa espécie, que é o de morder pra investigar. Ele morde até bóia rapaz! Morde qualquer coisa; morde e joga fora. Não é para se alimentar, é para investigar. É comum acharmos aqui tartarugas que foram mordidas e deixadas para trás; depois morrem do ferimento.

Não é um bicho pra se chegar perto …

O tigre, quando percebe a presença humana, não interage; ele foge. É diferente do limão e do lixa, que as pessoas conseguem se aproximar e tirar fotografia. O tigre é um bicho furtivo, que aparece de surpresa. Se você ver um tigre, saia da água; essa é nossa recomendação.

Após esse acidente, o senhor vê necessidade de alguma medida de segurança mais permanente contra ataques de tubarão em Noronha?

Acho que isso é uma grande lição para nós. Noronha ficou muito vaidosa, por a gente nunca ter tido um acidente envolvendo tubarões com esse tipo de violência. Isso deixou as pessoas muito confiantes. Mas temos que ter a clareza e não perder o foco de que o tubarão é um animal selvagem, um predador. Embora tenhamos espécies mais frequentemente amistosas, podem ocorrer encontros com espécies visitantes de comportamento mais agressivo, como o tigre.

Um dos problemas é que o acidentado estava só. Se ele estivesse acompanhado, a história poderia ter sido diferente. O tigre é muito covarde; é um oportunista”

Por isso acho importante tomar algumas medidas, que os analistas do ICMBio estão avaliando. Claramente valeria criar um protocolo de conduta para guias e visitantes, e restringir os horários de mergulho. Esse horário de final de tarde tem de ser evitado a todo custo — deixando claro que estou me referindo ao snorkel, não ao mergulho autônomo com cilindro. O snorkel é um tipo de mergulho mais vulnerável, que expõe a pessoa a parecer uma tartaruga (na Baía do Sueste, pelas regras do parque, ele é obrigatoriamente feito com colete salva-vidas). Um dos problemas é que o acidentado estava só. Se ele estivesse acompanhado, a história poderia ter sido diferente. O tigre é muito covarde; é um oportunista.

Tem algum jeito de impedir que o tigre se aproxime da costa?

Impedir, não tem. Uma coisa para a qual estou sempre alertando as pessoas é que o oceano é um ambiente selvagem, e que aqui em Noronha nosso papel é manter esse ambiente o quanto mais selvagem possível. É por isso que as pessoas vêm para Noronha, para ver a natureza como ela é de fato. E o risco é intrínseco num ambiente selvagem. O único lugar em que você vai estar totalmente seguro do ataque de um animal selvagem é uma piscina. No oceano, não tem jeito; por mais que você tente criar controles de segurança, sempre haverá uma taxa de risco.

Analisando friamente, estatisticamente, esse risco é menor do que o de morrer afogado, ser atropelado por um barco ou qualquer tipo de acidente associado a esportes aquáticos. Mas eu compreendo que o trauma de ser agredido por um animal selvagem faz parecer que a gente desceu um degrau na cadeia alimentar. A gente é educado a pensar que o homem é o senhor de tudo, o dono do planeta. Mas às vezes não é assim.

Outros pesquisadores dizem que 2015 foi um ano atípico no arquipélago, talvez por conta do aquecimento das águas pelo El Niño …

A verdade é que nesse ano houve sucessão de eventos raros: teve aporte de algas, uma quantidade incomum de sardinhas, um pico de temperatura mais alto que a média em abril e maio, ocorrência de um polvo gigante, que é uma espécie abissal raríssima (foi encontrado apenas um pedaço do animal, que pesava mais de 20 kg)  … Uma série de eventos curiosos. A ilha está com muito peixe. Hoje no Sueste a quantidade lagosta, de sardinha, de raia, de tudo era incrível; um mergulho fantástico.

E essa concentração de vida pode ser um atrativo maior para o tubarão-tigre na baía?

As pessoas querem uma explicação absoluta né, para poder entender. O fato é o seguinte: onde tem mais peixe, tem mais predador; simples assim. Mas outras áreas da ilha têm tanta vida quanto; não é só no Sueste.

Leia também: Praia que teve ataque de tubarão em Noronha é reaberta com restrições

Tubarão-tigre é uma das espécies mais agressivas de tubarão, frequentemente envolvida em ataques. Foto: Albert kok/Wikipedia

Tubarão-tigre é uma das espécies mais agressivas de tubarão, frequentemente envolvida em ataques. Foto: Albert kok/Wikipedia

Localização da praia onde ocorreu o ataque. Crédito: Herton Escobar, com imagem do Google Earth

Localização da praia onde ocorreu o ataque. Crédito: Herton Escobar, com imagem do Google Earth