Nature e Science elegem seus destaques de 2013: edição de DNA e imunoterapia contra o câncer estão no topo da lista

Nature e Science elegem seus destaques de 2013: edição de DNA e imunoterapia contra o câncer estão no topo da lista

Herton Escobar

19 Dezembro 2013 | 16h09

(Atualizado às 20h25)

A Nature divulgou hoje sua seleção de destaques 2013. Em vez de simplesmente listar descobertas, a revista este ano optou por algo diferente, que foi perfilar os pesquisadores que mais se destacaram no ano — não só em suas próprias páginas, mas na ciência de uma forma geral, e até nos tribunais. O pacote completo pode ser lido aqui: http://migre.me/h4qi2

O primeiro nome da lista é o de Feng Zhang, 32 anos, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Ele desenvolveu uma técnica biológica de “edição genética” chamada CRISPR, que permite “editar” (modificar) o DNA de uma célula de maneira controlada e com extrema precisão, inserindo ou deletando informações em pontos específicos do genoma. Uma ferramenta que promete revolucionar as pesquisas em biomedicina e biotecnologia, já com cheiro de prêmio Nobel no ar. A peça-chave é uma proteína chamada Cas9, que bactérias utilizam para se proteger de infecções virais. Vários laboratórios adotaram a técnica e começaram a experimentar com ela imediatamente, com 50 trabalhos publicados num período de apenas 10 meses. (Me faz lembrar o caso da técnica de produção de células-tronco de pluripotência induzida, ou iPS, que foi inventada pelo japonês Shinya Yamanaka em 2006 e lhe rendeu um prêmio Nobel apenas 6 anos depois, em 2012.)

Ironicamente, o trabalho pioneiro de Zhang não foi publicado na Nature, mas na sua principal rival editorial, a Science— que também selecionou a CRISPR como um dos seus destaques do ano. O prêmio de “Breakthrough of the Year” da revista americana, porém, foi para os avanços da imunoterapia oncológica, ou a manipulação do sistema imunológico como terapia contra o câncer — tudo ainda em fase experimental, mas com resultados clínicos bastante promissores. A estratégia, em suma, é usar o sistema imunológico dos próprios pacientes para reconhecer e destruir tumores. Para isso, é preciso destravar um “freio” molecular presente na superfície das células que modulam a atuação do sistema imunológico, chamado CTLA-4, que normalmente impede que o sistema imunológico se volte contra células proliferantes, porém sadias, do organismo.

Histórico. As pesquisas com imunoterapia contra o câncer começaram na década de 80, lideradas pelo imunologista James Allison, hoje pesquisador do MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas. Ele descobriu uma maneira de inibir a ação da CTLA-4 e publicou os primeiros resultados em 1996, na Science, mostrando que era possível eliminar tumores em camundongos utilizando anticorpos para bloquear a proteína nas superfície das células T (consequentemente, liberando as células do sistema imunológico para atacar e destruir células cancerígenas, como costumam fazer com bactérias e outros seres estranhos ou nocivos ao organismo).

Desde então, o campo vem avançando com altos e baixo (em alguns casos, muitos baixos). O que fez, então, a Science escolher a imunoterapia como destaque deste ano, especificamente? Fui encontrar a resposta só nos últimos parágrafos do artigo: o anúncio dos resultados preliminares de um grande estudo clínico que está sendo conduzido pela farmacêutica Bristol-Myers Squibb, com 1.861 pacientes com melanoma. Segundo esses resultados preliminares, apresentados no Congresso Europeu de Câncer em setembro, 22% dos pacientes tratados com uma droga imunoterápica desenvolvida pela empresa (chamada Yervoy, ou ipilimumab) continuavam vivos após 3 anos de terapia.

Até onde eu pude checar, esses resultados preliminares ainda não foram publicados nem na Science nem em nenhuma outra revista científica. O que me faz questionar se a escolha da revista, por mais promissores que sejam os dados, não foi um tanto prematura. Tomara que não.

Segundo o especialista brasileiro José Alexandre Barbuto: não! Os resultados da Bristol-Myers, segundo ele, são apenas mais um indício de algo que o imunologistas já vêm dizendo há muito tempo, mas que os médicos hesitavam fortemente em aceitar: “de que o sistema imunológico, quando engajado na briga, dá conta” de destruir tumores. “O que mais mudou neste ano foi que os clínicos passaram a aceitar que a imunoterapia pode funcionar. Foi mais uma mudança de visão do que racional”, afirma Barbuto, pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. “Há muito tempo os imunologistas já dizem que sim, mas os clínicos sempre diziam que não.”

“O problema é que o freio não é específico para o câncer; é para tudo, por isso os efeitos colaterais da terapia são muito fortes”, afirma Barbuto. Ainda assim, os resultados acumulados de várias pesquisas não deixam mais dúvidas, segundo ele, de que a estratégia é válida e potencialmente muito eficaz. O desafio, agora, é aprimorar a modulação do sistema, para tornar a resposta mais específica e garantir que a briga do sistema imunológico seja apenas com as células tumorais, e não com o resto do organismo. Que seja mais parecida com uma luta de boxe do que com uma briga de torcidas de futebol, por assim dizer. Imagine só!