Nicolelis reproduz “ilusão da mão de borracha” em macacos; projetos com a AACD são aprovados na Conep

Nicolelis reproduz “ilusão da mão de borracha” em macacos; projetos com a AACD são aprovados na Conep

Herton Escobar

26 Agosto 2013 | 20h43

Capa desta semana da revista PNAS**. O destaque da capa é para um trabalho sobre fluxo de citoplasma dentro de células vegetais (simulado por um modelo matemático em computador). Imagem produzida Francis G. Woodhouse and Raymond E. Goldstein.

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Pesquisadores reproduziram em macacos o clássico experimento da “ilusão da mão de borracha”, em que o cérebro é induzido a interpretar um membro artificial como se fosse de verdade. O estudo, liderado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, na Universidade Duke (EUA), ajuda a reforçar o entendimento da ciência sobre a plasticidade funcional do cérebro, mostrando que neurônios normalmente associados ao processamento de informações sensoriais e motoras podem, também, responder a estímulos puramente visuais – quando apenas a mão de borracha é tocada, em vez da verdadeira.

Neste caso, o membro falso não era de borracha, mas virtual, projetado numa tela de LCD em frente ao animal. Numa primeira etapa do experimento, o braço do avatar e o braço verdadeiro do macaco eram tocados simultaneamente por alguns minutos – o primeiro, por uma bola de borracha virtual e o segundo, por um pincel. Num segundo momento, apenas o braço virtual era tocado.

Em ambas as situações, os braços verdadeiros do macaco ficavam escondidos, de modo que o animal não enxergava seus próprios membros. Em todas as etapas do experimento, a atividade cerebral dos animais (2 macacos resos) era registrada por meio de eletrodos implantados diretamente sobre regiões do córtex associadas ao processamento de informações sensoriais e motoras.

O resultado fundamental é que muitos dos neurônios monitorados nessas duas regiões continuaram a processar informações mesmo quando apenas o braço do avatar era tocado, indicando que os macacos haviam “assimilado” o membro virtual como se fosse parte do seu corpo, e que esses neurônios relacionados a informações sensitivas e motoras podiam, também, processar informações de estímulos visuais.

“Os resultados dão suporte à nossa teoria de que o córtex não está estritamente segregado em áreas relacionadas a uma única função, como tato ou visão”, afirma Nicolelis, em nota divulgada pela Universidade Duke, na qual ele é professor. Um conceito que vem sendo demonstrado por vários experimentos, há vários anos, de maneira bastante convincente.

O estudo foi realizado na Duke, em parceria com pesquisadores da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça — sem participação do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), que Nicolelis coordena na capital do Rio Grande do Norte. Os resultados estão publicados na edição desta semana da revista PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos EUA.

Andar de Novo

Segundo Nicolelis, a pesquisa tem implicações para o desenvolvimento de neuropróteses – próteses controladas diretamente pelo cérebro –, como a que ele está desenvolvendo para o projeto Andar de Novo, com o objetivo de colocar um jovem paraplégico brasileiro para dar o chute inicial da Copa do Mundo de 2014, usando um exoesqueleto controlado pelo cérebro para se movimentar.

A tecnologia está sendo desenvolvida fora do País, mas Nicolelis espera iniciar em breve testes com seres humanos no Brasil, em parceria com a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). O projeto recebeu R$ 33 milhões em apoio do governo federal, por meio da Agência Brasileira de Inovação (Finep).

Dois projetos submetidos pela AACD, tendo Nicolelis como pesquisador principal, foram recentemente aprovados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). O primeiro, aprovado em maio e previsto para começar em julho, chama-se “Avaliação da plasticidade cerebral por método de registro eletroencefalográfico em pacientes com lesão medular em treinamento de reabilitação no Lokomat”. O segundo, aprovado na segunda-feira da semana passada (dia 19), chama-se “Projeto Andar de Novo: desenvolvimento de uma órtese robótica controlada por sinais biológicos para restaurar a deambulação em pacientes com lesão medular”.

O Estado procurou Nicolelis e a AACD para saber mais detalhes sobre os projetos – por exemplo, se eles envolvem algum procedimento invasivo, como a colocação de eletrodos no córtex, a exemplo do que é feito nos macacos – mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem (20h do dia 26)*.

* Atualizado às 17h30, 28/08/2013

** A imagem abaixo, que vem circulando na internet, parece, mas não é, a capa da revista.