NO FIM DAS CONTAS, É CADA UM POR SI…

NO FIM DAS CONTAS, É CADA UM POR SI…

Herton Escobar

03 Março 2010 | 15h39

FOTO: Jonne Roriz

FOTO: Jonne Roriz

Hoje ia escrever sobre terremotos, movimento de placas tectônicas, rocha derretida, fluxo de magma e outras coisas fantásticas (e assustadoras) que ocorrem dentro do nosso jovem planeta Terra, quilômetros e quilômetros e quilômetros abaixo dos nossos pés …..

Mas de última hora resolvi escrever sobre algo ainda mais complicado, interessante e, é claro, polêmico ….

As cenas dos saques a supermercados que emergiram recentemente do Haiti e, agora, do Chile me lembraram cenas do filme Ensaio sobre a Cegueira. Para quem não viu o filme do Fernando Meirelles (nem leu o livro do José Saramago, no qual ele é baseado), eis um resumo: Uma misteriosa epidemia de cegueira se espalha pelo mundo, deixando todo mundo… pois bem… cego. A sociedade entra em colapso. É cada um por si, tateando às cegas pelas ruas e corredores em busca de alimento, água e outros itens básicos de sobrevivência. O dinheiro perde completamente o valor. Uma lata de sardinhas ou uma garrafa d’água valem mais do que uma pepita de ouro.
Do ponto de vista científico, esse tipo de situação caótica traz à tona uma série de reflexões sobre a evolução do comportamento social do ser humano. A estabilidade do convívio social em grandes populações é algo extremamente frágil. Compartilhar recursos (espaço, água, alimento, energia) com indivíduos não aparentados é algo inusitado no reino animal. Normalmente, fica tudo em família.

Claro que há muitos animais que também se organizam em grupos e até exibem comportamento social, mas nada na escala de 6 bilhões de indivíduos. Ou de uma cidade, ou mesmo de um bairro ou um prédio de apartamentos. A multiplicação populacional do Homo sapiens só foi possível historicamente graças à invenção de uma série de regras e tecnologiais que permitiram a indivíduos não aparentados conviver em grandes comunidades sem precisar competir entre si por alimento, água, terra, etc. (A principal delas foi a agricultura.) Quanto maior a população, mais recursos são necessários e mais regras são necessárias para distribuir esses recursos de uma maneira que garanta a sobrevivência de todos os integrantes daquela população. Caso contrário, a população torna-se insustentável.

Do ponto de vista puramente biológico, grupos menores fazem muito mais sentido, pois são muito mais sustentáveis. Na natureza, o tamanho das populações é determinado pela disponibilidade de recursos. Uma população só cresce se houver alimento suficiente na natureza para isso. Já o homem inventou a tecnologia e passou a perna na ordem natural das coisas … Imagine só se cada uma das 6 bilhões de pessoas do mundo tivesse que produzir (ou caçar) seu próprio alimento? Certamente não seríamos 6 bilhões. Não chegaríamos nem perto disso.

Mas enfim…. o que tudo isso tem a ver com os terremotos, os saques e a cegueira? Pois bem. É nesses momentos caóticos que podemos ver com mais clareza a fragilidade da estrutura social. Convivemos bem uns com os outros desde que esse convívio seja benéfico para nossa própria sobrevivência. Ou seja: desde que o coletivo beneficie o individual. Quando esse equilíbrio é quebrado por um evento inesperado, como um terremoto ou uma epidemia, o instinto biológico de sobrevivência entra em ação e as boas regras de convívio social ficam por um fio. Cada um vai lutar pela sua sobrevivência e pela sobrevivência de seus familiares, acima de tudo. Não importa se você vive no Haiti ou no Chile (dois países extremamente diferentes). A reação foi a mesma.

Claro que há um monte de espertinhos que aproveitam para levar uma geladeira ou uma televisão, mas como condenar uma pessoa faminta que, numa situação de desespero, invade os escombros de um supermercado para “roubar” comida ou mesmo um pacote de fraldas? Será que eu ou você agiríamos de outra forma nessa situação? Não sei e espero nunca precisar saber.

Abraços a todos.