NO RASTRO DOS DINOSSAUROS

NO RASTRO DOS DINOSSAUROS

Herton Escobar

26 Março 2011 | 18h21

.

Imagine se você pudesse olhar para o passado. Pudesse ficar parado num lugar e ver o ambiente a sua volta retroceder no tempo, como um filme em reverso. Se estivesse em São Paulo, veria a cidade diminuir de tamanho até ser deconstruída por completo e dar lugar à sua cobertura original de mata atlântica, pontuada no máximo por algumas aldeias indígenas. Com tempo suficiente, veria o nível do mar retroceder até quilômetros de distância, formando uma ligação de terra contínua e coberta de florestas entre o que hoje é a praia e as ilhas do litoral paulista. Muitos bichos passariam por você. Primeiro, onças e macacos. Depois, preguiças gigantes e tatus do tamanho de um Fusca. Eventualmente, dinossauros de vários tipos e tamanhos. E coisas ainda mais antigas.

A paleontologia, infelizmente, ainda não é uma das ciências mais desenvolvidas e valorizadas no Brasil. Mas tem crescido bastante nos últimos anos e, felizmente, nos presenteado com descobertas muito interessantes de dinossauros e outros animais pré-históricos que caminharam por essas terras agora brasileiras milhares ou milhões de anos atrás, muito antes de qualquer tipo de ser humano dar as caras por aqui.

Faz uns dois meses, pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo apresentaram ao público o Tapuiasaurus macedoi, um gigante pescoçudo com 13 metros de comprimento que caminhava por onde hoje é o interior de Minas Gerais, 120 milhões de anos atrás.

Na semana passada, pesquisadores do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro apresentaram ao público mais uma série de descobertas pré-históricas. Entre elas, um gigante carnívoro batizado de Oxalaia quilombensis, com estimados 12 a 14 metros de comprimento e 5 a 7 toneladas de peso, que você pode ver na ilustração acima (uma concepção artística de como o dinossauro poderia ser, baseado na comparação deste fóssil brasileiro com os de outros dinossauros do mesmo grupo, encontrados em outros lugares do mundo). Imagine, então, voltar uns 95 milhões de anos no tempo, na atual Ilha do Cajual, no Maranhão, e dar de cara com esse monstrengo! Um predador carnívoro do tamanho de um elefante!

A descrição do Oxalaia quilombensis foi publicada numa edição especial de paleontologia dos Anais da ABC (Academia Brasileira de Ciências), uma das revistas científicas mais antigas do país.

Agora, nesta semana, mais uma novidade foi desenterrada do passado brasileiro (e do planeta): Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul apresentaram com um trabalho na revista Science a descrição de um animal que viveu ainda antes dos dinossauros, cerca de 260 milhões de anos atrás, no fim do período Permiano (veja a notícia completa publicada no Estadão). O Tiarajudens eccentricus, que você pode ver na ilustração da matéria, era um bicho pra lá de estranho. Ele já tinha uma dentição bem adaptada para comer plantas, numa época em que ser herbívoro ainda era coisa nova no planeta, mas também um par de caninos enormes, tipo dente-de-sabre. Ele era um sinapsídeo, parte de um grupo bem variado de animais que deu origem, entre outras coisas já extintas, à linhagem dos mamíferos. Ou seja, nós! (com a ressalva importante de que o Tiarajudens eccentricus, especificamente, não é um ancestral direto nosso … ele pertencia a uma linhagem diferente de sinapsídeos, que foi extinta no fim do Permiano … aliás, ele e quase tudo mais que vivia sobre a Terra naquela época).

E já que tocamos no assunto, vale chamar a atenção para um outro trabalho muito interessante, publicado na edição de 3 de março da revista Nature, com o título “Será que a sexta extinção em massa da Terra já chegou?” Esperamos que não … mas o cenário não é muito animador.

Extinções em massa parecem coisa de cinema, mas elas acontecem de verdade, e pra valer. A que deu fim aos dinossauros 65 milhões de anos atrás, no fim do período Cretáceo, é apenas a mais famosa. Houve pelo menos quatro outras, ocorridas 443, 359, 251 e 200 milhões de anos atrás. Em todas elas, mais de 75% das espécies do planeta foram extintas. Em geral, por uma combinação de eventos catastróficos e mudanças climáticas, detonadas por intenso vulcanismo, impactos de asteróides e outras coisas pouco agradáveis desse tipo.

Segundo os autores, que têm entre eles o biólogo brasileiro Tiago Quental, 99% das estimadas 4 bilhões de espécies que já existiram na Terra foram extintas ao longo do tempo. O 1% que “sobrou” é o que temos hoje. E a grande maioria das espécies atuais será eventualmente extinta também e substituída por novas espécies (talvez até nós). É o curso natural das coisas … A dúvida é se isso vai levar milhões de anos, via processos naturais de mudança e evolução, ou apenas algumas décadas ou séculos, pelas mãos destrutivas do homem.

Você já deve ter ouvido falar que espécies estão sendo extintas hoje pela ação do homem muito mais rápido do que acontecia na era dos dinossauros. Pois é … confesso que tenho um certo pé atrás com essa afirmação. Se não sabemos nem quantas espécies temos hoje exatamente, como podemos comparar taxas de extinção atuais com taxas de extinção de milhões de anos atrás, com base apenas no registro fóssil (que, por sua vez, é apenas uma pequena amostra de tudo que já existiu). Mas pois é … há maneiras cientificamente corretas, sim, de estimar isso. Mesmo que não conheçamos todas as espécies que existem hoje, podemos inferir com base em critérios científicos bem definidos que montes e montes de espécies estão sendo extintas ou já foram extintas nos últimos séculos sem que nunca tivéssemos conhecimento da existência delas. Porque foram extintas antes de serem descobertas.

Segundo os autores, as estimativas indicam que os seres humanos estão, sim, desencadeando uma sexta extinção em massa da biodiversidade do planeta, estimulada pela superexploração dos recursos naturais, destruição e fragmentação de habitats, introdução de espécies invasoras, poluição, caça, pesca, desmatamento, mudança climática, etc. Se continuar assim, dizem eles, a maior parte das espécies do planeta poderá desaparecer no prazo de alguns poucos séculos.

Então, imagine só! Para aqueles que nascerem daqui algumas décadas, um tigre-de-bengala poderá ser algo tão histórico quanto um dinossauro é para nós hoje. Para ver um fora de um zoológico, só mesmo com uma máquina do tempo.

Abraços a todos.