O CLIMA TAMBÉM MATA

O CLIMA TAMBÉM MATA

Herton Escobar

17 Janeiro 2011 | 23h08

Covas para vítimas da chuva em Teresópolis. (FOTO: Wilton Junior/AE)

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Tenho acompanhado com muita tristeza, à distância, pela internet, o desenrolar das tragédias na região serrana do Rio.

É ao mesmo tempo impressionante e aterrorizante perceber como algo tão elementar e necessário à nossa sobrevivência como a água pode se transformar rapidamente em uma arma de destruição em massa da natureza. Afinal de contas, se pensarmos bem, não aconteceu nada muito extraordinário do ponto de vista climático no Rio … simplesmente choveu. Muito! Mas só isso. Caiu água do céu, como sempre cai.

Não digo isso para banalizar nem minimizar o que aconteceu, claro, mas para chamar a atenção para a seriedade e a gravidade das mudanças climáticas. A tragédia do Rio escancara, de maneira extremamente dolorosa, como pequenas alterações nos padrões climático podem ter consequências desastrosas para o homem, especialmente em ambientes urbanos. Não precisa furacão, não precisa tornado. O mar não precisa virar sertão nem o sertão virar mar. Basta chover mais do que o normal por alguns dias e os problemas já começam a aparecer. As pessoas já começam a morrer.

Não estou dizendo que as chuvas na região serrana do Rio foram “causadas” pelo aquecimento global. Nem vou entrar nessa discussão agora, pois, como já escrevi outras vezes neste blog, não há como atribuir um único evento regional e pontual a uma alteração lenta e gradual que ocorre em escala global. Mas o que posso dizer com um alto grau de confiança (com base em dados científicos) é que eventos como esse tendem a se tornar cada vez mais frequentes daqui pra frente.

Os modelos de previsão indicam que, com a atmosfera mais quente, o clima se tornará “mais extremo” em comparação com o que estamos acostumados. Com relação à chuva no Sudeste brasileiro, especificamente, a previsão é que as precipitações se tornem mais concentradas no tempo e no espaço. Ou seja: em vez de chover X milímetros em 30 dias, vai chover X milímetros em 3 dias. No fim do ano, ou no fim do mês, a quantidade de água que caiu do céu (X milímetros) pode até ser a mesma de antigamente. Mas a velocidade e a distribuição com que ela cai fazem toda a diferença.

Na cidade, o resultado pode ser tragédias como os deslizamentos do Rio ou as enchentes de São Paulo, que fazem travar a maior e a mais rica cidade do País. No campo, o resultado pode ser lavouras inteiras perdidas. As práticas agrícolas são baseadas em um rigoroso calendário de distribuição de chuvas. Se a chuva chega antes ou depois do previsto, ou se chove demais (ou de menos) de uma vez só, vai tudo por água abaixo. (Se você tiver uma planta em casa, faça o seguinte experimento: em vez de regá-la 3 vezes por semana, regue 1 vez só, com o triplo da quantidade de água e veja o que acontece no fim do mês.)

É triste também ver o despreparo e a falta de estrutura das autoridades para lidar com esse tipo de emergência. Chegou a hora de parar de pensar nas mudanças climáticas como um problema do futuro e começar a se preparar agora para os seus efeitos do presente. Porque com ou sem Protocolo de Kyoto, eles virão. Temos de evitar que as mudanças climáticas se tornem piores no futuro mais distante, reduzindo as emissões globais de gás carbônico, mas também temos de nos preparar para as mudanças que já estão em curso e que são inevitáveis para o futuro mais próximo. Por exemplo, retirando as pessoas que vivem em áreas de risco nas cidades e adaptando nossa agricultura aos novos padrões climáticos o mais rápido possível.

A natureza já nos deu alertas suficientes. Vamos ouvi-la.

O aquecimento global é coisa séria. Não é apenas um incômodo, que vai ser resolvido com um filtro solar a mais ou um ar-condicionado mais eficiente. O clima mata. Chuva mata. Calor mata. Pra valer.

Abraços a todos e minha solidariedade às vítimas do Rio.