O DIREITO CHINÊS DE POLUIR

Herton Escobar

18 Agosto 2009 | 21h18

Para concluir minha série de posts sobre “quem paga a conta do aquecimento?”, aqui vai o relato de uma entrevista que fiz com um diplomata chinês em Bonn na semana passada, sobre a posição chinesa nas negociações para o próximo acordo climático de Copenhague.

Em breve no blog, notícias sobre o fundo do mar, biodiversidade e berçários de estrelas…. abraços.

O DIREITO CHINÊS DE POLUIR

O diplomata Qian Guoqiang invoca uma espécie de provérbio chinês para descrever a postura de seu país frente ao aquecimento global. “Nós falamos pouco e fazemos muito; essa é a tradição chinesa. Os países desenvolvidos falam muito, mas fazem muito pouco”, disse Guoqiang ao Estado. “Nós somos os que mais contribuímos para o combate às mudanças climáticas, mas ninguém reconhece isso. Só dizem que somos o maior poluidor do mundo.”

Mesmo sem ter a obrigação de reduzir suas emissões (por ser um país em desenvolvimento), a China possui um plano de “desenvolvimento de baixo carbono” que deverá evitar a emissão de 1,5 bilhão de toneladas de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera no período 2005-2010, segundo Guoqiang. A meta de redução para toda a União Europeia dentro do Protocolo de Kyoto, comparativamente, é de 350 milhões de toneladas, aponta o diplomata.

As ações chinesas incluem investimentos em fontes de energia renovável – como solar e eólica –, recuperação de florestas, substituição e modernização de antigas termoelétricas de carvão, mais uma série de programas de eficiência energética voltadas para o mercado consumidor, com subsídios para a substituição de lâmpadas e a compra de eletrodomésticos mais econômicos.

“Estamos levando as mudanças climáticas muito a sério”, afirma Guoqiang, um dos principais negociadores chineses no âmbito da Convenção do Clima e do Protocolo de Kyoto.
Ele deixa claro, porém, que seu país não aceitará metas obrigatórias de redução de emissões para o próximo período de vigência do protocolo, que começa em 2013.

“O direito dos países em desenvolvimento precisa ser respeitado”, disse ele, reconhecendo que isso implicará num aumento de emissões nas próximas décadas. “Nós é que vamos decidir como contribuir. Todas as ações serão nacionais, determinadas por nós, sem qualquer imposição externa.”

A meta do país, segundo Guoqiang, é reduzir o máximo possível o ritmo de crescimento das emissões nas próximas décadas. Que elas crescerão, porém, é inegável, inevitável, e um direito da China, segundo o diplomata.

“Quanto conseguiremos reduzir vai depender do apoio internacional”, acrescentou ele, cobrando suporte financeiro e tecnológico dos países desenvolvidos (uma obrigação que está prevista na Convenção do Clima, mas que nunca foi cumprida a contento pelos países ricos).

“Queremos que os países desenvolvidos nos ajudem a alcançar o desenvolvimento sustentável. Algum dia nós chegaríamos lá de qualquer jeito, mas as mudanças climáticas nos forçam a fazer isso muito mais depressa. Não temos como fazer isso sozinhos.”