O ‘MILAGRE’ DO EFEITO PLACEBO

O ‘MILAGRE’ DO EFEITO PLACEBO

Herton Escobar

23 Agosto 2010 | 14h19

FOTO: EVELSON DE FREITAS / AE

FOTO: EVELSON DE FREITAS / AE

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Semana passada eu estava viajando pelo interior e por acaso ouvi um programa numa rádio em que uma médica homeopata tirava dúvidas dos ouvintes e dava conselhos sobre tratamentos homeopáticos.

Até aí, tudo bem. A homeopatia é uma especialidade médica reconhecida no Brasil e até financiada pelo Sistema Único de Saúde. Em um determinado momento, porém, falando sobre câncer, a tal médica desandou a criticar oncologistas da “medicina tradicional” que desencorajavam seus pacientes a usar a homeopatia como tratamento. Ela não chegou a recomendar que pessoas com câncer parassem de fazer quimioterapia, mas disse que “podia, sim, misturar a homeopatia com o tratamento que não tinha problema nenhum”.

Ela tem toda a razão. Mas não pelos motivos certos.

As drogas homeopáticas podem, sim, ser misturadas com qualquer coisa porque, essencialmente, elas não são drogas. Não contêm princípio ativo nenhum. E, portanto, são essencialmente inócuas.

Na homeopatia, o que o paciente toma é uma solução ou pílula na qual uma substância natural foi diluída a tal ponto que, no final das contas, não resta praticamente nada dela na composição. Um dos sites de homeopatia que eu encontrei pelo Google afirma que “quanto mais uma substância é diluída, maior será sua eficácia”. (Eu não sou nenhum químico, mas posso dizer com certeza que, quimicamente, isso não faz nenhum sentido.)

Mas aí muita gente vai dizer: “Eu usei homeopatia e me curei”, ou “minha mãe usou homeopatia a vida toda e sempre funcionou”. Absolutamente verdade! Só que, mais uma vez, não pelos motivos certos.

O fato – que nem os homeopatas nem a indústria farmacêutica querem que você saiba – é que nem sempre é preciso uma droga de verdade para curar alguma coisa. Em muitos casos, o nosso corpo é capaz de se curar sozinho. E a simples percepção de que se está recebendo um tratamento pode, de fato, induzir uma resposta fisiológica benéfica, mesmo que o tratamento seja inócuo (e que você não saiba disso).

É o famoso, porém pouco compreendido, efeito placebo.

Para entender isso é preciso, primeiro, saber como funciona um ensaio clínico. O modelo básico para se testar a eficiência de um medicamento é o chamado teste “duplo cego”: você pega um grupo de pacientes e divide-o em dois. Metade vai receber o medicamento (princípio ativo) de verdade. E a outra metade (chamada grupo controle) vai receber uma pílula igualzinha, só que sem princípio ativo algum. Uma pílula de farinha, ou de açúcar, ou qualquer outra substância inócua desse tipo. O ponto crucial do experimento é que ninguém sabe quem está recebendo o que – nem os médicos que estão administrando o tratamento, nem os pacientes que estão tomando as pílulas (daí o nome “duplo cego”). Só ficam sabendo no final, quando “os envelopes são abertos” para comparar os resultados.

E vejam só que incrível: em muitos casos, a pílula de farinha é tão eficaz quanto a pílula com o medicamento de verdade – ou até melhor! Ou seja: o paciente melhorou simplesmente porque achava que estava recebendo uma droga, apesar de não ter recebido droga nenhuma. (Não se trata de um efeito sobrenatural, mas de uma resposta induzida pelo cérebro, que, estimulado pela perspectiva de tratamento, comanda os sistemas de defesa e reparo do organismo a combater o problema com maior eficácia.)

É claro que isso tem limites. Você não vai fazer um tumor desaparecer tomando pílulas de farinha, por exemplo. Nem impedir que uma mulher engravide. Mas é fato que o efeito placebo é um efeito fisiológico verdadeiro. A pessoa não só pensa que melhorou, ela melhorou de verdade (pelo menos temporariamente).

Talvez ela fosse melhorar de qualquer maneira, e o efeito placebo tenha apenas acelerado o processo, ou criado uma sensação de bem estar, o que não deixa de ser um benefício. Lembro-me do caso de uma amiga que voltou do carnaval de Salvador com uma virose danada, vomitando, com febre, diarreia, etc. Perguntei se ela estava tomando alguma coisa e ela disse: “Sim, fui no médico homeopata da minha mãe e ele me passou um remédio.” Eu fiquei preocupado e disse que ela deveria tomar um remédio de verdade … ela ficou brava e não falou mais comigo. Disse que já estava melhorando, sim. E de fato melhorou.

Bom … como todo mundo já deve ter ouvido falar, virose não tem remédio. Quando um vírus entra no seu corpo, três coisas podem acontecer: 1) seu sistema imunológico elimina o vírus por conta própria no prazo de alguns dias (exemplo: gripe), 2) o vírus fica para sempre no seu corpo e causa uma doença crônica (exemplos: hepatite e herpes), ou 3) você morre (exemplos: ebola e HIV, se não for controlado com drogas pesadas).

Na maioria dos casos, felizmente, o corpo consegue eliminar o vírus por conta própria. Os remédios servem apenas para aliviar os sintomas, não para combater a infecção. A minha amiga acha que foi curada pela homeopatia, mas ela certamente teria melhorado de qualquer maneira sem ela, felizmente. Não que a homeopatia não tenha trazido algum benefício … mas se trouxe, imagino que foi pelo efeito placebo induzido, e não porque o remédio tinha alguma droga de verdade dentro dele.

É importante entender isso para fazer o uso correto dessas terapias e ter consciência das suas limitações. (Porém, fica a dúvida: Se a pessoa souber que está tomando uma solução inócua, vai se sentir melhor mesmo assim?)

O mesmo efeito pode estar por trás de muitas curas “milagrosas” por aí. Por exemplo, no caso das “terapias” com células-tronco vendidas na China. Muitos pacientes relatam pequenas melhoras, que podem muito bem ser induzidas por efeito placebo e não ter nada a ver com a terapia de fato. A expectativa de melhora do paciente é tão grande que ele melhora de verdade (ou pelo menos se sente melhor), independentemente de qualquer efeito terapêutico real das células. Em outras palavras: se você injetasse uma solução de água com açúcar em vez de células-tronco, o efeito provavelmente seria o mesmo. Imagine só!

Abraços a todos.

DICA: Para quem quiser ler mais sobre o efeito placebo, a revista Wired publicou uma reportagem excelente sobre o tema no ano passado, que pode ser lida aqui neste link (em inglês).