O QUE FAZER COM A ENERGIA NUCLEAR?

O QUE FAZER COM A ENERGIA NUCLEAR?

Herton Escobar

23 Março 2011 | 12h09

Foto: David Moir/Reuters (gráfico mostrando a intensidade do terremoto no Japão)

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O que fazer com a energia nuclear?

Faz mais de uma semana que tento escrever algo sobre a tragédia que se abateu sobre o Japão, com extrema dificuldade. Terremotos e tsunamis são fenômenos bem conhecidos, imprevisíveis e inevitáveis, sobre os quais já escrevi outras vezes aqui no blog. Não há como evitá-los. Temos apenas de aceitar que eles vão acontecer de tempos em tempos e tentar nos preparar o melhor possível para seus efeitos, com sistemas de monitoramento e alerta mais eficientes, construções mais seguras, etc.

Já o debate desencadeado pelos danos causados às usinas nucleares de Fukushima é algo muito mais complexo. Porque podemos fazer alguma coisa sobre elas … Mas o quê? A energia atômica é a tecnologia mais elegante, poderosa e ao mesmo tempo assustadora já inventada pelo homem. Com uma quantidade relativamente pequena de combustível nuclear é possível produzir uma quantidade relativamente muito grande de energia. Um quilo de urânio enriquecido numa usina nuclear pode produzir a mesma quantidade de energia que várias toneladas de carvão mineral em uma usina termoelétrica, por exemplo.

Com a vantagem, em tempos de aquecimento global, de não produzir nenhuma emissão de carbono. Do ponto de vista da sustentabilidade climática, a energia nuclear é 100% limpa. Tudo que um reator nuclear faz é aquecer água para produzir vapor, que é usado para movimentar uma turbina, que produz eletricidade. Igual se faz numa termoelétrica movida a carvão ou óleo diesel, só que com muito mais eficiência e sem emissão de poluentes. No final, o vapor é condensado (transformado de volta ao estado líquido) e reenviado ao reator para ser reutilizado. É um ciclo fechado, sem contato com o ambiente externo.

Quando uma usina nuclear está funcionando normalmente e perfeitamente, portanto, é uma maravilha tecnológica. O problema é que, como dizem os americanos, “shit happens”. And always will happen! Pode ser por uma falha humana, por atentado terrorista ou por um terremoto seguido de tsunami … mas sempre acontece e sempre vai acontecer. E é aí que a grande preocupação sobre a energia atômica se torna evidente.

É difícil ocorrer um acidente numa usina nuclear, pois as normas de segurança são realmente rígidas e os sistemas de segurança, extremamente robustos. Mas quando algo dá errado, os efeitos podem ser desastrosos. Chernobyl foi o maior e mais horrível exemplo disso.

O mais assustador é pensar que estamos lidando com um “contaminante” invisível. A radioatividade. Algo que penetra nossas células e nos atinge naquilo que é a raiz da nossa existência: o nosso DNA. Que se espalha pelo ar, pelo solo e pela água, sem cheiro, sem cor e sem som.

Se você pudesse olhar dentro de um reator nuclear, veria um monte de varetas mergulhadas em uma piscina. Parece ser a coisa mais simples e inofensiva do mundo. Mas daquelas varetas emana a energia mais elementar e mais poderosa do universo: a força do átomo. As varetas são feitas de urânio, que é o elemento mais “pesado” da natureza, com 92 prótons em seu núcleo. (O hidrogênio, que é o elemento mais leve, tem apenas 1, e o ferro, 26.) O calor que faz ferver a água dentro do reator nuclear é gerado pela fissão, ou quebra, desses átomos de urânio. A reação é desencadeada atirando-se nêutrons nas varetas. Quando um nêutron atinge um átomo de urânio, o átomo se quebra em dois e libera energia na forma de calor. Também libera mais nêutrons que estavam dentro de seu próprio núcleo … esses nêutrons, então, atingem outros átomos de urânio na vareta, que também se quebram, liberando mais energia e ainda mais nêutrons, que atingem mais átomos de urânio e assim por diante, criando uma reação em cadeia.

Em cadeia, mas controlável … desde que tudo funcione bem e não apareça nenhum tsunami pela frente.

Sem a água do tanque e outras medidas de segurança para controlar o ritmo da reação e absorver a energia produzida por ela, a temperatura gerada pela fissão do urânio é tão alta que o núcleo pode derreter por completo, liberando quantidades imensas de radiação. Esse é o pior cenário possível.

É incrível (e assustador) a quantidade de energia que se pode tirar de um punhado de átomos.Imagine só!

Mas, se pensarmos bem, é a força mais elementar do universo. E nossas vidas dependem dela. O Sol, sem o qual a maior parte da vida na Terra não existiria, nada mais é do que uma bola de gás que funciona como um reator nuclear. Só que em vez de quebrar átomos, ele os une, pela força da gravidade. Átomos de hidrogênio são fundidos no núcleo solar para formar átomos de hélio, e é isso, simplesmente, que faz o Sol brilhar no horizonte e nos aquecer todas as manhãs. (E, apesar de parecer uma bola de fogo, não há chamas no Sol, assim como não há chamas dentro de um reator nuclear … é energia pura.)

Para dar outro exemplo assustador, a bomba atômica que destruiu Nagasaki em 1945, colocando fim à Segunda Guerra Mundial, tinha um núcleo de apenas 4 kg de plutônio. E esses 4 kg de plutônio foram suficientes para devastar uma cidade inteira. A energia produzida pela explosão foi equivalente à de 14 mil toneladas de dinamite. Imagine só, tanta energia, num espaço tão pequeno.

A força do átomo comanda respeito.

A pergunta que não quer calar é: Diante de uma força tão poderosa e potencialmente destrutiva, o que devemos fazer? Nos esforçar para controlá-la e usá-la a nosso favor, ou melhor não correr riscos e deixá-la de lado?

Cerca de 14% da energia que abastece o mundo hoje é produzido em usinas nucleares. É uma fatia considerável, da qual muitos países – entre eles, o Japão – não podem abrir mão da noite para o dia. Ou talvez jamais. Num mundo ideal, claro, o ideal seria que toda a energia do planeta fosse produzida de forma 100% limpa, sustentável e pacífica. Nada melhor do que energia solar ou eólica, que não produz resíduos, não explode, não derrete nem contamina ninguém. Mas a eficiência energética dessas tecnologias, infelizmente, ainda precisa melhorar muito para ser economicamente competitiva com outras fontes. (O que não significa que devemos ignorá-las, mas o contrário: investir e pesquisar cada vez mais para que elas se tornem competitivas no futuro.)

No caso do Japão há um outro complicador: a falta de espaço. Seria logisticamente impossível num país pequeno, superpovoado e superindustrializado como o Japão substituir a produção de energia nuclear por solar ou eólica. Então, só resta uma alternativa no momento aos japoneses: trocar as usinas nucleares por usinas termoelétricas, movidas a combustíveis fósseis. O que aumentaria significativamente as emissão de carbono do país (que já está entre as mais altas do mundo).

Então, o que é mais perigoso: Gerenciar os riscos da energia nuclear, ou contribuir para o aquecimento global?

O ponto final é precisamos de alternativas energéticas limpas e seguras o quanto antes.

Abraços a todos.